
A história recente do Irã é um retrato cruel de como revoluções que prometem libertação podem degenerar em regimes ainda mais opressivos do que aqueles que derrubaram. A queda do xá Mohammad Reza Pahlavi, em 1979, celebrada como o fim de uma monarquia autoritária e excessivamente alinhada ao Ocidente, abriu caminho para a instalação de uma teocracia que, ao longo de mais de quatro décadas, consolidou uma das mais duras ditaduras contemporâneas. O regime dos aiatolás, nascido do discurso moralizador e da promessa de justiça social, revela hoje sua face mais brutal: a de um Estado que não reconhece limites quando confrontado com o desgaste de sua própria legitimidade.
A Revolução Iraniana de 1979 foi impulsionada por uma ampla coalizão social. Estudantes, trabalhadores, setores religiosos e parte da elite intelectual convergiram na rejeição ao xá, acusado de governar com mão de ferro, reprimir opositores e impor um projeto de modernização percebido como artificial, desconectado da tradição e da identidade persa. O aiatolá Ruhollah Khomeini, então exilado na França, tornou-se o símbolo dessa ruptura. Por meio de discursos transmitidos clandestinamente, fitas cassete e panfletos, galvanizou multidões com a promessa de restaurar a dignidade nacional e devolver o poder ao povo.
O que se seguiu, porém, foi a substituição de um autoritarismo secular por um autoritarismo religioso. A República Islâmica nasceu sob a retórica da justiça divina, mas rapidamente estruturou um sistema político fechado, no qual a soberania popular foi submetida à autoridade suprema do líder religioso. O sonho de reviver a grandeza do antigo Império Persa converteu-se em um projeto de poder sustentado pela repressão interna e pelo confronto permanente com o exterior.
Após a morte de Khomeini, em 1989, seu sucessor, o aiatolá Ali Khamenei, consolidou um regime ainda mais centralizado. A figura do líder supremo deixou de ser apenas um guia espiritual para tornar-se o vértice de uma engrenagem repressiva que envolve a Guarda Revolucionária, milícias paramilitares e um aparato de segurança onipresente. Protestos populares, recorrentes ao longo das últimas décadas, têm sido sistematicamente sufocados com violência extrema.
Organizações de direitos humanos e observadores internacionais relatam números estarrecedores de mortos, presos e desaparecidos em sucessivas ondas de repressão. Estima-se que dezenas de milhares de iranianos tenham sido assassinados ao longo dos anos em prisões, execuções sumárias e repressões de rua, números que, mesmo quando contestados pelo regime, evidenciam uma tragédia humana de grandes proporções.
Desde dezembro de 2025, surge uma nova e massiva onda de protestos em todo o país especialmente em Teerã, Rasht, e outras grandes cidades, motivada inicialmente pela crise econômica, inflação galopante e colapso do poder de compra, e que rapidamente se transformou em um levante político contra todo o sistema teocrático. Em resposta, o regime iraniano lançou uma das mais brutais repressões da história recente do país, com confrontos ferozes entre as forças de segurança e manifestantes.
As estimativas de mortos variam amplamente devido à censura estatal e ao bloqueio quase total da internet, mas refletem um nível de violência sem precedentes. O governo iraniano anunciou oficialmente cerca de 3.117 mortos no contexto da repressão, número amplamente contestado, enquanto organismos independentes indicam cifras muito maiores. Relatórios de hospitais iranianos e levantamentos de direitos humanos sugerem que milhares de manifestantes podem ter sido mortos, com estimativas que variam entre cerca de 6.000 e mais de 30.000 mortos em confrontos, especialmente em dias de intensa violência em janeiro de 2026.
Cidades inteiras vivem sob o terror do Estado, onde protestar por liberdade, dignidade ou melhores condições de vida pode significar a sentença de morte. Desde seus primeiros passos, a República Islâmica escolheu o confronto como política externa. O episódio do sequestro da embaixada dos Estados Unidos em Teerã, que manteve diplomatas e servidores da embaixada americana reféns por mais de 444 dias, marcou simbolicamente a ruptura com o Ocidente e anunciou ao mundo a natureza radical do novo regime. A partir dali, o Irã mergulhou em uma espiral de isolamento, sanções e conflitos.
A guerra contra o Iraque de Saddam Hussein, nos anos 1980, custou centenas de milhares de vidas e aprofundou a militarização do Estado. Nas décadas seguintes, o regime investiu pesadamente em um controverso programa nuclear e no financiamento de grupos armados no Líbano, na Faixa de Gaza e no Iêmen, transformando-se em um ator central da instabilidade no Oriente Médio.
Enquanto bilhões eram destinados a essas frentes externas, a população iraniana enfrentava inflação galopante, escassez de produtos básicos e o colapso do poder de compra. Supermercados vazios, desemprego crescente e a corrosão do cotidiano tornaram-se símbolos de um país rico em recursos, mas empobrecido por escolhas políticas que privilegiam a ideologia e a confrontação em detrimento do bem-estar de seu povo.
Ao medir forças com potências militares como Israel e os Estados Unidos, o regime dos aiatolás revelou não apenas ousadia, mas imprudência estratégica. O avanço do programa nuclear e o discurso explícito de hostilidade elevaram as tensões regionais a níveis críticos, culminando em ações militares destinadas a conter as ambições iranianas. Longe de fortalecer o regime internamente, essas aventuras externas ampliaram o descontentamento popular e reacenderam protestos em diversas cidades do país.
A tentativa de reviver uma grandeza imperial, agora sob a roupagem de uma missão religiosa, repete erros históricos já conhecidos: concentração absoluta de poder, desprezo pela vida humana e incapacidade de ouvir a sociedade. Como outros projetos autoritários ao longo da história, o regime iraniano parece sucumbir ao próprio peso de sua violência.
O que se vê hoje no Irã é um Estado em guerra contra sua própria população. Jovens, mulheres, estudantes e trabalhadores voltam às ruas não por ideologia externa, mas por exaustão interna. Exigem direitos básicos, liberdade de expressão e dignidade. A resposta do regime tem sido a mesma de sempre: balas, prisões e sangue.
A revolução que prometeu justiça terminou por instaurar o terror. O aiatolá que deveria guiar espiritualmente a nação transformou-se no símbolo de uma ditadura que mata para sobreviver. A história, implacável, ensina que regimes fundados na violência dificilmente escapam de seu destino final. O Irã vive hoje o momento em que o passado cobra a conta do presente e o futuro permanece em aberto, escrito nas ruas, sob o custo trágico de vidas iranianas.
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