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Saúde INOVAÇÃO EM SAÚDE

A startup que tratou a maternidade como um sistema inteligente, e virou um negócio bilionário

Como Marta Bralic Kerns transformou o caos do cuidado materno em uma empresa avaliada em US$ 1,7 bilhão ao aplicar dados onde antes reinava improviso

19/01/2026 às 05h33
Por: Douglas Ferreira
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 Marta Bralic Kerns mostrou que é possível empreender apenas organizando o óbvio - Foto: Reprodução
Marta Bralic Kerns mostrou que é possível empreender apenas organizando o óbvio - Foto: Reprodução

A história da empreendedora Marta Bralic Kerns ajuda a entender como grandes negócios nascem, muitas vezes, não de uma ideia genial isolada, mas de um incômodo profundo. Antes de fundar a Pomelo Care, em 2021, Marta era uma executiva experiente na área da saúde, acostumada a usar dados para melhorar decisões médicas. Ainda assim, ao engravidar, viveu um choque. Mesmo com bons médicos e plano de saúde robusto, encontrou um sistema fragmentado, pouco personalizado e surpreendentemente analógico. Era como pilotar um avião moderno usando instrumentos do século passado.

O contraste foi tão gritante quanto revelador. Se a medicina já operava com algoritmos sofisticados para tratar câncer, como ela mesma havia visto na Flatiron Health, por que a saúde materna ainda dependia tanto de tentativa e erro? Ao conversar com obstetras e especialistas em medicina fetal, Marta descobriu números alarmantes. Um em cada dez bebês acaba em uma UTI neonatal, muitas vezes por complicações previsíveis, como a pré-eclâmpsia, que poderia ser identificada e tratada mais cedo. Era como ver uma enchente anunciada sem que ninguém abrisse as comportas.

Com passagem pela consultoria McKinsey e experiência direta no Medicaid, programa de saúde voltado a pessoas de baixa renda nos Estados Unidos, Marta decidiu atacar um dos gargalos mais caros e sensíveis do sistema. Fundou a Pomelo Care com um objetivo claro, usar dados, tecnologia e acompanhamento contínuo para prevenir problemas antes que eles explodissem em custos humanos e financeiros. O foco inicial foi o público do Medicaid, historicamente difícil de atender, marcado por doenças crônicas, pouco acompanhamento médico e instabilidade social.

A proposta da Pomelo é simples na aparência, mas sofisticada na execução. Atendimento virtual 24 horas por dia, sete dias por semana, monitoramento constante e uso inteligente de dados para identificar riscos precocemente. Em vez de correr atrás do incêndio, a empresa atua como um sistema de alarme bem calibrado. Um exemplo emblemático é o uso de aspirina em baixa dose, capaz de reduzir em até 25% o risco de pré-eclâmpsia. Barato, eficaz, mas inútil se o risco não for identificado a tempo.

O modelo agradou às seguradoras porque fala a língua que elas entendem, custo e eficiência. Internações em UTIs neonatais custam mais de US$ 25 bilhões por ano nos EUA. Dados apresentados pela empresa mostram redução de 15% nos custos totais do atendimento de pacientes do Medicaid, queda de 46% nas idas ao pronto-socorro e redução de 58% nas internações em UTI neonatal. Em outras palavras, prevenir saiu muito mais barato do que remediar, algo que o discurso já dizia há décadas, mas poucos conseguiam provar com números.

Hoje, a Pomelo cobre cerca de 25 milhões de pessoas e participa de quase 7% de todos os nascimentos nos Estados Unidos. Trabalha com gigantes como UnitedHealthcare, Elevance e grandes empregadores corporativos. O crescimento acelerado culminou, recentemente, em uma rodada de US$ 92 milhões liderada pelo fundo Stripes, que elevou a avaliação da empresa para US$ 1,7 bilhão, mais que o triplo da avaliação registrada em 2024.

O nome Pomelo, inspirado na fruta de casca grossa e protetora, funciona como metáfora perfeita para o negócio. A startup se propõe a ser essa camada de proteção entre mães, bebês e um sistema de saúde historicamente falho no cuidado preventivo feminino. E Marta não pretende parar na maternidade. O plano é expandir o modelo para mulheres em todas as fases da vida, da pós-menopausa ao cuidado infantil.

A trajetória da fundadora ajuda a explicar a solidez do negócio. Formada em governo e ciência da computação por Harvard, passou pela McKinsey e integrou a Flatiron Health, vendida à Roche por US$ 1,9 bilhão. Foi durante sua própria gravidez que teve a epifania que mudaria sua carreira. Saiu da empresa em 2021 e contou com apoio direto de antigos colegas e investidores, que apostaram mais na disciplina e execução de Marta do que em promessas vazias.

Na prática, ela mesma sentiu a diferença. Em sua primeira gravidez, foi induzida ao parto após um teste positivo para estreptococo. Na segunda, acompanhada pela Pomelo, seguiu a abordagem baseada em evidências e aguardou o início natural do trabalho de parto. Pequenas decisões, grandes impactos, exatamente o tipo de lógica que orienta o negócio.

Ao apresentar a solução às seguradoras, Marta percebeu algo revelador. Elas não precisavam ser convencidas do problema, apenas queriam desesperadamente a solução. Em menos de dez minutos de apresentação, a discussão já pulava direto para o “como fazer funcionar”. Isso diz muito sobre um sistema que conhece suas falhas, mas raramente encontra quem saiba consertá-las.

A história da Pomelo Care mostra que inovação de verdade não está em criar algo mirabolante, mas em organizar o óbvio com método, dados e coragem. Enquanto grande parte da saúde ainda corre atrás das consequências, Marta Bralic Kerns construiu um negócio bilionário fazendo o que parecia simples demais para ser levado a sério, prevenir.

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