
No calor dos protestos e da repressão no Irã, que desde o final de 2025 tem enfrentado manifestações intensas e uma resposta violenta de seu regime teocrático contra a população, a postura do governo Luiz Inácio Lula da Silva tem gerado debates acalorados e críticas duras, tanto no Brasil quanto no exterior.
Longe de adotar uma posição firme de condenação à repressão no Irã, onde organizações internacionais estimam milhares de mortes entre manifestantes, podendo superar 2000, desde o início das mobilizações, o Itamaraty e o governo brasileiro oscilaram entre notas cautelosas e apelos por “máxima moderação” da comunidade internacional, sem expressar uma crítica contundente ao regime de Teerã. Críticos definem isso como uma postura diplomática que mais parece leniência do que defesa de direitos humanos.
Enquanto grande parte do mundo democrático se posiciona contra a violência estatal e em apoio aos direitos fundamentais, as reações oficiais de Brasília se limitaram a apelos genéricos por “contenção” ou por diálogo, sem jamais identificar com clareza quem é responsável pelos abusos. Essa ambiguidade, ou o que alguns classificam como complacência, alimenta a percepção de que o governo federal estaria mais preocupado em manter laços estratégicos e econômicos do que em defender princípios básicos de dignidade humana.
Para muitos analistas, não se trata apenas de uma questão de estilo diplomático, mas de uma tendência histórica da chamada “esquerda governista” brasileira de relativizar violações quando cometidas por governos que, no discurso, se opõem às potências ocidentais. No passado, isso foi visto em posturas brandas diante de outros regimes autoritários e em críticas que se concentraram mais em apontar os erros dos aliados dos Estados Unidos do que em condenar diretamente as atrocidades do lado oposto.
No caso específico do Irã, a situação é ainda mais delicada. A resposta do governo brasileiro, marcada por cautela extrema e ausência de uma condenação forte, ocorre enquanto protestos seguem sendo duramente reprimidos, e enquanto países democráticos expressam apoio claro ao povo iraniano. O resultado é uma imagem de hesitação que, para críticos, beira a apatia ou a conivência tácita.
É importante distinguir responsabilidade social de diplomacia pragmática. Estados soberanos podem escolher canais de diálogo, mediação ou contenção antes de pronunciar juízos categóricos. Mas quando isso se traduz em inércia diante de repressão violenta, prisões em massa e relatos de centenas, possivelmente milhares, de vítimas, fica legítima a pergunta: até que ponto a defesa do princípio do diálogo não se transforma em tolerância com o intolerável?
A crítica não é uma apologia automática a qualquer política externa dos Estados Unidos ou de outros países. Ela nasce, antes, da observação de que a defesa de direitos humanos deveria ser um valor universal, especialmente para uma nação que se posiciona no cenário internacional como promotora da paz e da justiça. Ao optar por um equilíbrio excessivamente cauteloso diante de ações repressivas, o governo brasileiro corre o risco de ser visto como conivente com regimes que desrespeitam os princípios universais de liberdade e dignidade humana, um cenário que alimenta não apenas inquietação política, mas também preocupações éticas profundas no Brasil e além de suas fronteiras.
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