
O Departamento de Estado dos Estados Unidos publicou nesta terça-feira (11) um vídeo que merece ser lido muito além de sua narrativa histórica. Ao recuperar a Doutrina Monroe e afirmar que a predominância americana no Hemisfério Ocidental “nunca mais será questionada”, o governo Donald Trump não está simplesmente revisitando um episódio do século XIX. Está reafirmando uma concepção de poder sobre as Américas.
A Doutrina Monroe foi apresentada pelo presidente James Monroe em 1823, em um momento no qual os Estados Unidos ainda consolidavam sua posição como potência. Seu princípio original era uma advertência às potências europeias contra novas colonizações e intervenções no continente americano. Com o passar do tempo, entretanto, a doutrina passou a ser interpretada também como fundamento para a predominância de Washington sobre o Hemisfério Ocidental.
É justamente essa dimensão que volta agora ao centro da política externa americana.
A mensagem ganha peso porque não aparece isoladamente. A Estratégia de Segurança Nacional do governo Trump já estabeleceu como objetivo a retomada da predominância dos Estados Unidos no Hemisfério Ocidental e a contenção da presença de potências externas em áreas consideradas estratégicas. Em janeiro, depois da operação americana que capturou Nicolás Maduro na Venezuela, Trump afirmou que a política americana havia ultrapassado a antiga Doutrina Monroe, chamando sua nova formulação de “Donroe Doctrine”. Na ocasião, declarou que a predominância americana no Hemisfério Ocidental não seria mais questionada.
O vídeo divulgado agora funciona, portanto, como uma espécie de reafirmação institucional dessa política. Ao apresentar episódios históricos em que a Doutrina Monroe serviu de justificativa para a atuação americana na região e conectá-los à política atual, o Departamento de Estado constrói uma narrativa de continuidade: os Estados Unidos se consideram novamente responsáveis por garantir sua predominância estratégica nas Américas.
O destinatário imediato dessa mensagem é evidente: China e Rússia. Washington não pretende assistir passivamente à expansão da influência chinesa e russa em seu entorno geopolítico. A América Latina deixou de ser apenas uma região de interesse comercial e voltou a ser tratada como espaço de competição entre grandes potências.
Mas os governos latino-americanos também são destinatários da mensagem. Washington está dizendo, em linguagem diplomática e estratégica, que determinadas alianças, investimentos, instalações, recursos naturais e posições geopolíticas serão observados com muito mais atenção pelos Estados Unidos.
O problema começa quando a noção de predominância deixa de significar apenas influência diplomática e econômica e passa a admitir, ainda que excepcionalmente, o uso da força.
A operação que resultou na captura de Maduro estabeleceu um precedente particularmente importante. Independentemente das justificativas apresentadas por Washington, a ação demonstrou que o governo Trump está disposto a utilizar poder militar no próprio Hemisfério Ocidental. Por isso, quando a administração americana recupera a Doutrina Monroe e fala em domínio incontestável, a declaração possui um peso diferente daquele que teria alguns anos atrás.
Isso significa que novas intervenções militares estão a caminho?
Não necessariamente. O vídeo, isoladamente, não permite afirmar que exista uma nova operação militar planejada. Seria irresponsável transformar uma declaração estratégica em previsão de guerra. Mas seria igualmente ingênuo ignorar o significado político da mensagem depois do precedente venezuelano.
O que mudou foi o grau de explicitude.
Durante décadas, Washington exerceu enorme influência sobre a América Latina sem precisar falar abertamente em “domínio”. Agora, a palavra aparece de maneira direta na comunicação política americana. E quando uma grande potência anuncia que sua predominância em determinada região não será questionada, está estabelecendo uma espécie de limite para os demais atores internacionais.
É nesse cenário que o Brasil merece atenção especial.
Não há evidência, neste momento, de que o governo Trump esteja preparando uma intervenção militar contra o Brasil. O país não deve ser apresentado como “próximo alvo” sem qualquer comprovação. O que existe é uma crescente divergência entre Brasília e Washington, principalmente no campo comercial e diplomático.
O Brasil já levou à Organização Mundial do Comércio uma contestação contra tarifas adicionais impostas pelos Estados Unidos. A OMC confirmou que Brasília iniciou formalmente o procedimento de consultas.
Agora, a China pediu para participar das consultas abertas pelo Brasil contra as medidas americanas, acrescentando uma dimensão geopolítica à disputa comercial. Pequim possui interesse comercial direto no caso e sua entrada reforça a percepção de que a controvérsia deixou de ser exclusivamente bilateral.
Esse detalhe é estratégico.
O Brasil é a maior economia da América Latina, possui enormes reservas de recursos naturais, produção agrícola em escala global, importância energética e mineral e mantém relações econômicas profundas tanto com os Estados Unidos quanto com a China. É, portanto, um país impossível de ser ignorado por qualquer estratégia americana para o Hemisfério Ocidental.
Isso não significa que o Brasil esteja sob ameaça militar. Significa que o Brasil ocupa uma posição central na disputa pela influência sobre a América Latina.
E é exatamente por isso que a retórica de Washington deve ser acompanhada com atenção, mas sem alarmismo.
A Doutrina Monroe pertence ao século XIX. A realidade internacional do século XXI é completamente diferente. Os países latino-americanos são Estados soberanos, possuem relações comerciais diversificadas e não estão obrigados a escolher uma única potência como parceira. O Brasil, particularmente, tem tradição diplomática de autonomia e busca manter relações simultâneas com diferentes centros de poder.
A questão que se coloca agora é até onde Washington pretende levar sua reivindicação de predominância.
Se a estratégia se limitar à disputa econômica, à diplomacia, à cooperação em segurança e à tentativa de impedir a expansão de China e Rússia, estaremos diante de uma nova fase de competição geopolítica.
Se, entretanto, a noção de predominância passar a ser utilizada para justificar intervenções contra governos que contrariem os interesses americanos, o cenário será muito mais grave.
O vídeo do Departamento de Estado não responde essa pergunta. Mas faz algo igualmente importante: estabelece publicamente a doutrina política que orientará a resposta americana à crescente presença de outras potências nas Américas.
Depois da Venezuela, a advertência deixou de ser apenas histórica.
Washington está dizendo que considera o Hemisfério Ocidental sua principal esfera de interesse estratégico. Cabe aos países latino-americanos, inclusive ao Brasil, compreender a dimensão dessa mudança sem submissão, sem provocação desnecessária e sem ilusões.
Porque uma coisa é certa: quando uma superpotência diz que seu domínio sobre determinada região não será mais questionado, o restante do mundo precisa prestar atenção.
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