
A justiça do Reino de Deus é dar a cada um o que precisa para viver e viver abundantemente, ainda nesta terra.
VaticanNews - Josenildo *Melo
Mais uma vez, a liturgia nos corrige quando dizemos que aquelas coisas boas que nos acontecem ou acontecem com nossos amigos são consequências dos méritos a que fizemos jus. Do mesmo modo, quando ocorre algum acontecimento infausto, perguntamos o que fizemos para receber tal castigo. Por outro lado, se isso acontece com alguém que não nos é simpático, comentamos que essa pessoa deve ter aprontado e, por isso, recebe essa punição.
Toda essa maneira de pensar está errada e não é cristã. O Cristianismo trabalha com a gratuidade, isto é, com a ação de Deus, e Deus é Pai, é Amor. Deus nos ama não por aquilo de bom que fizemos e nem deixa de nos amar pelas coisas erradas que praticamos. O Amor ama por amar e, mesmo vendo nossas culpas, continua nos amando. Essa é a grande e eterna verdade. Somos amados gratuitamente por Deus!
Quando Deus nos criou, não existíamos. Ele nos amou primeiro, sem nenhum mérito nosso. E assim continua, porque Ele é Deus! Isso nos diz Isaías na primeira leitura: “Meus pensamentos não são como vossos pensamentos e meus caminhos não são como os vossos caminhos, diz o Senhor!” (Is 55,8).
Essa ideia é retomada e referendada por Jesus com a parábola do patrão generoso. O patrão dá a mesma quantia como pagamento tanto aos que começaram pela manhã quanto aos que foram contratados no final do dia. Ao ouvir as reclamações dos que se achavam mais cheios de méritos que os outros, ele responde: “Por acaso não tenho o direito de fazer o que quero com aquilo que me pertence? Ou estás com inveja, porque estou sendo bom?” (Mt 20,15).
A justiça do Reino de Deus é dar a cada um o que precisa para viver e viver abundantemente, ainda nesta terra. Não faz parte da justiça de Deus a realidade na qual alguns que não trabalham tanto ganham quantias enormes, enquanto outros, que trabalham muito, como empregadas domésticas, professores de escola média e outros profissionais, ganham o insuficiente para uma vida decente.
Todos são filhos de Deus, e a igualdade deve acontecer já nesta vida, e não apenas na outra. O amor deverá superar todas as desigualdades e fazer justiça a todos, isto é, todos deverão ter o necessário para uma vida tranquila, com direito ao que precisam. Está errado e não é justo alguns terem tanto e outros nem sequer terem o necessário para sobreviver.
Josenildo Nascimento Melo é Vaticanista - Jornalista especializado em Igreja Católica/Santa Sé/Vaticano
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