
A declaração do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, coloca o governo Lula diante de uma cobrança internacional que atinge justamente uma das áreas mais sensíveis do discurso político petista: o combate ao crime organizado.
Em decreto divulgado nesta quarta-feira (16), a administração norte-americana afirmou que o governo brasileiro “falhou em confrontar” o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV), classificados pelos Estados Unidos como organizações terroristas estrangeiras. O documento afirma ainda que essas facções transformaram o Brasil em um “centro de distribuição global de cocaína” e cobra do governo brasileiro medidas urgentes contra os grupos.
Há uma ressalva importante: o Brasil não foi incluído pelos EUA na lista dos principais países produtores ou de trânsito de drogas ilícitas. A crítica específica ao governo brasileiro aparece, portanto, mesmo com o país fora dessa classificação.
PCC e CV não nasceram nos governos do PT. O PCC surgiu em São Paulo em 1993, enquanto o Comando Vermelho tem origem no sistema prisional do Rio de Janeiro nos anos 1970. A expansão das duas organizações é um fenômeno de décadas, atravessando governos de diferentes partidos e ideologias.
Mas também é impossível ignorar que parte importante da expansão nacional dessas organizações ocorreu durante os anos em que o país foi governado pela esquerda, incluindo os governos de Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff, e voltou a ganhar dimensão durante o atual governo Lula.
Estudos acadêmicos registram justamente o período de 2005 a 2018 como uma fase de disseminação do PCC de São Paulo para outras regiões do país.
E os números mais recentes são ainda mais eloquentes.
Na Amazônia Legal, o Fórum Brasileiro de Segurança Pública identificou 178 municípios com presença de facções em 2023. Em 2025, eram 344, um crescimento de 93% em apenas dois anos. O Comando Vermelho passou de influência em 128 municípios, em 2023, para 286 em 2025. O PCC estava presente em 93 cidades em 2023 e em 90 em 2025.
Isso não significa que esse crescimento possa ser atribuído exclusivamente ao governo Lula ou aos governos de esquerda. O crime organizado possui dinâmica própria, opera além das fronteiras estaduais e nacionais e se adapta às políticas de segurança de diferentes administrações.
Mas o dado desmonta qualquer tentativa de apresentar a expansão das facções como um problema pequeno, localizado ou controlado.
É justamente aí que a declaração de Trump ganha peso político.
O governo Lula se apresenta como defensor do combate ao crime organizado, enquanto sua administração também rejeitou a classificação americana de PCC e CV como organizações terroristas, alegando preocupação com a soberania brasileira.
Agora, o presidente americano afirma publicamente que o Brasil falhou no enfrentamento dessas organizações.
Não é uma conclusão brasileira de oposição. É uma acusação formulada pelo governo dos Estados Unidos — e, por isso, pode ser contestada pelo Planalto. Mas ela coloca Lula diante de uma questão objetiva: quais são os resultados concretos da política brasileira de combate ao crime organizado?
A pergunta ganha ainda mais força porque PCC e CV deixaram de ser organizações restritas a determinados territórios. Hoje, segundo pesquisas do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, elas disputam rotas internacionais de cocaína, avançam sobre municípios da Amazônia, estabelecem alianças com grupos locais e ampliam sua capacidade de atuação.
Durante a campanha, o combate à violência e ao crime organizado é sempre apresentado como prioridade. O problema começa quando a retórica encontra a realidade das ruas.
Não basta dizer que o Estado combate as facções. É preciso demonstrar que o Estado está conseguindo impedir que elas cresçam, conquistem territórios, controlem rotas, movimentem bilhões e estabeleçam conexões internacionais.
E esse é o ponto mais incômodo da declaração de Trump.
Independentemente de concordar ou não com a política externa americana, o fato político permanece: um governo estrangeiro está dizendo que o Brasil não está fazendo o suficiente contra as duas maiores organizações criminosas do país.
E os próprios estudos brasileiros mostram que o crime organizado continua avançando em determinadas regiões.
O Brasil precisa responder com números, operações, apreensões, prisões qualificadas, bloqueio de patrimônio, controle de fronteiras e, sobretudo, capacidade permanente de desmontar a estrutura financeira das facções.
Porque prender soldados do tráfico enquanto o comando financeiro permanece funcionando é enxugar gelo.
E quando PCC e Comando Vermelho conseguem transformar o território brasileiro em plataforma para o tráfico internacional, a discussão deixa de ser apenas sobre segurança pública.
Passa a ser sobre soberania, fronteiras, economia, política e capacidade do Estado de impor sua autoridade sobre o crime organizado.
Trump colocou a questão sobre a mesa.
Agora, cabe ao governo Lula responder, não apenas com discurso, mas com resultados.
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