
O Brasil se prepara para protagonizar uma mudança histórica no mercado global do cacau — e, curiosamente, essa virada não nasce na Amazônia nem nas tradicionais áreas do sul da Bahia. Ela surge no oeste baiano, no município de Riachão das Neves, onde o produtor Moisés Schmidt, dono da Schmidt Agrícola e presidente da Aiba, está construindo nada menos que a maior fazenda de cacau do mundo. Um projeto que mistura tecnologia de ponta, irrigação intensiva, mecanização e uma dose colosal de ambição.
O plano é monumental: 500 mil hectares, US$ 300 milhões em investimentos, 1,6 milhão de toneladas de cacau em dez anos — um número tão gigantesco que, se confirmado, desloca o eixo global do chocolate. O Brasil, que hoje luta para suprir sua própria indústria, pode se tornar protagonista de uma commodity que entrou em colapso produtivo no continente africano.
Schmidt não chegou a essa visão por acaso. Ele passou 12 dias na África no início do ano — Nigéria, Gana, Costa do Marfim e Senegal — conversando com produtores, visitando áreas devastadas por pragas, vendo de perto as plantações envelhecidas e assistindo à queda de produtividade que está mergulhando o mundo numa crise sem precedentes. Voltou com uma certeza: o Brasil tem tudo que a África perdeu — e mais.
Hoje, o mundo consome 5 milhões de toneladas de cacau por ano, mas precisa chegar entre 8 e 10 milhões até 2050, segundo a ICCO. Enquanto isso, a produção africana despenca, criando um buraco de quase 480 mil toneladas e fazendo o preço explodir para níveis nunca vistos: US$ 13 mil por tonelada, depois recuando para um ainda assustador patamar de US$ 8 mil. “Há risco real de as próximas gerações não conhecerem o chocolate como ele é hoje”, alerta Schmidt.
Esse diagnóstico ganhou eco entre gigantes globais como Cargill, Barry Callebaut, Mars e Olam/OFI, todas representadas no Brasil pela AIPC — entidade que processa 95% do cacau brasileiro. Anna Paula Losi, presidente da associação, não suaviza: “Se não mudarmos o cenário do cacau, vamos parar fábricas por falta de matéria-prima.”
Diante desse colapso global, Schmidt decidiu agir. Em vez do tradicional cacau sombreado, ele aposta no sistema a pleno sol, com irrigação tecnificada, microaspersão, mecanização intensiva e densidade inédita: 1.600 árvores por hectare, contra 300 do modelo convencional. É agricultura de precisão aplicada a uma cultura historicamente vista como pouco escalável.
Mas essa ousadia tem um preço. Só no projeto-piloto, de 400 hectares (70% já implantados), o investimento é de R$ 200 mil por hectare. E ainda houve um gargalo inesperado: a falta de mudas de qualidade no mercado. Resultado: Schmidt construiu o maior viveiro de cacau do mundo, o BioBrasil, capaz de produzir 3,5 milhões de mudas por ano, com meta de chegar a 10 milhões até 2027. Uma infraestrutura concebida para atender não apenas sua fazenda, mas o futuro de toda uma cadeia produtiva.
O projeto também recebe apoio robusto da pesquisa científica: Ceplac, Embrapa Fruticultura, Embrapa Cerrado, além de estudos fitotécnicos de variedades capazes de prosperar em pleno sol e com irrigação rigorosa. A empresa já opera com práticas de agrofloresta moderna, usando cobertura verde total, braquiária e leguminosas como o amendoim-bravo.
Os resultados começam a aparecer. A expectativa inicial, de 200 arrobas por hectare, já dobrou: agora se projeta 400 arrobas, ou 6 toneladas por hectare, um número que coloca o oeste da Bahia entre as áreas mais produtivas do mundo. A lavoura ainda não dá lucro total, porque está na transição entre Capex e Opex, mas gera receitas crescentes — e projeções de rentabilidade muito acima das culturas concorrentes.
A ambição de Schmidt está criando um efeito dominó na região. Já são 30 produtores do oeste baiano apostando na cacauicultura, com 700 hectares em implantação. Um movimento que, se continuar crescendo, poderá transformar o Matopiba — até então símbolo de soja, milho e algodão — em um novo polo global de cacau.
O mundo assiste a essa movimentação com atenção. Na conferência da World Cocoa Foundation, em São Paulo, o presidente Chris Vincent foi direto: “Há muito a aprender com o Brasil.” Diante de uma África instável, o país surge como alternativa técnica, climática e logística. E a Bahia, antes conhecida pela cacauicultura tradicional da zona cacaueira, agora se reinventa como um laboratório de inovação agrícola.
No fim das contas, o projeto de Schmidt não é apenas uma aposta empresarial. É uma disputa geopolítica. A África perde força, a Europa treme com o risco de desabastecimento, e o mundo começa a olhar para o Cerrado irrigado da Bahia como o lugar onde o chocolate pode renascer.
Se o plano der certo, o Brasil deixará de ser coadjuvante para se tornar o fiel da balança do cacau mundial.
E, quem sabe, o guardião do futuro daquilo que o planeta ama — talvez até mais do que deveria: o chocolate.
TAXIDERMIA Guaxinim empalhado comprado por Haaland viraliza, esgota estoque e abre debate sobre a legalidade da taxidermia
ILHA AMSTERDAM Cinco vacas abandonadas em uma ilha deram origem a um rebanho que desafiou a ciência por mais de um século
ANTIMICROBIANOS União Europeia veta carne brasileira? Entenda o que realmente mudou e quais podem ser os impactos Mín. 22° Máx. 38°