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Editorial CONEXÃO SUL

O Brasil do luxo e do lixo: extremos que não se encontram

Cria-se a ilusão de progresso, enquanto o esgoto corre a céu aberto.

13/07/2025 às 21h21
Por: Carolina Vedovato Fonte: CAROLINA VEDOVATO
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O Brasil do luxo e do lixo: extremos que não se encontram

O Brasil, definitivamente, é o país dos extremos. E mais do que conviver com a desigualdade, aprendemos a aceitá-la como parte da paisagem.

O dado é tão simbólico quanto alarmante: segundo o Instituto Trata Brasil, o Brasil está atrás da Índia em acesso ao saneamento básico. Isso mesmo um país que se orgulha de seu agronegócio, de seus prédios inteligentes e suas avenidas cheias de SUVs, ainda tem 35 milhões de pessoas sem acesso à água tratada e 90 milhões sem coleta de esgoto.

Enquanto isso, a Índia com mais de 1,4 bilhão de habitantes avançou nos últimos anos em infraestrutura e conseguiu superar o Brasil nesse quesito básico. A pergunta que fica é: como um país que consome como nações ricas, oferece serviços públicos abaixo da média global?

Parte da explicação está na cultura do consumo que domina o Brasil. Em um país onde ter vale mais do que ser, a ostentação virou válvula de escape para a frustração coletiva. Compra-se o que não se pode pagar, exibe-se o que não se vive. E assim, cria-se a ilusão de progresso, enquanto o esgoto corre a céu aberto.

Nunca se comprou tanto produto de luxo no Brasil como nos últimos anos, mesmo com inflação alta, desemprego persistente e crescimento fraco. A desigualdade se aprofundou, mas parte da elite prefere ignorá-la e a classe média finge não perceber, desde que possa postar suas “conquistas” nas redes sociais.

O problema maior não é a existência da riqueza, mas a indiferença diante da miséria. A falta de políticas públicas efetivas, o descaso histórico com infraestrutura, o abandono das periferias e o desprezo pelas camadas invisíveis da sociedade formam um caldo que se repete década após década.

Os mesmos que discursam sobre igualdade, justiça, inclusão e “pelo povo”, vivem uma realidade completamente blindada do cotidiano brasileiro. Defendem o socialismo em palavras, mas ostentam o capitalismo mais voraz em seus estilos de vida. Ministérios inchados, cargos fantasmas, salários acima do teto, aposentadorias precoces, auxílios palacianos tudo isso bancado por um povo que mal consegue manter a geladeira cheia.

Se cobra altos impostos do povo, que mal pode pagar sua conta de luz. Mas não se corta mordomia, se cria mais uma secretaria. Não se reduz gabinete, se inventa mais um cargo. A máquina pública virou um sistema de manutenção de privilégios

A pergunta que fica é: até quando vamos tolerar essa dicotomia? Até quando viveremos em um país onde o mesmo cidadão pode pagar R$ 30 mil em uma bolsa, mas não consegue confiar na água que sai da torneira?

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