
No Brasil, está cada vez mais difícil fazer jornalismo. Digo, jornalismo sério, independente, criterioso, apurado, provocativo, investigativo. Sim, jornalismo é oposição, é denúncia. Como dizia Millôr Fernandes: “Jornalismo é oposição, o resto é armazém de secos e molhados.” E é isso mesmo.
Mas fazer jornalismo, na verdadeira acepção da palavra, é também se expor. É se tornar alvo dos mentecapatos, dos ignóbeis, dos escalafobéticos, dos abilolados, dos criminosos, dos investigados - e até daqueles que, embora ainda não investigados, talvez devessem ser. Veja o caso de José Ferreira da Silva, o Frei Chico, irmão do presidente Lula. Ele é vice-presidente de um sindicato envolvido em um escândalo de descontos indevidos de aposentadorias no INSS, investigado pela Polícia Federal e pela Controladoria-Geral da União (CGU).
Apesar do peso das acusações e do montante envolvido - mais de R$ 300 milhões -, Frei Chico não é alvo formal das investigações. E poucos veículos da grande imprensa se atrevem a perguntar: por quê? Por que o irmão do presidente da República está fora do inquérito que apura a maior fraude já registrada contra aposentados no Brasil?
Quem ousou levantar essa e outras perguntas foi o jornalista José Ribas Neto, do Portal AZ, que publicou em abril a matéria “Escândalo bilionário no INSS atinge sindicato ligado a irmão de Lula”. A reportagem se baseia em documentos públicos da CGU e da PF.
A resposta não foi uma contestação nos fatos, mas uma notificação extrajudicial enviada pelo próprio Frei Chico e o Sindicato Nacional dos Aposentados, Pensionistas e Idosos (SINDNAPI), exigindo a retirada imediata da matéria sob ameaça de processo judicial.
A notificação deu 48 horas para remoção do conteúdo, mesmo com a matéria contendo a versão do sindicato. Assinada por advogados da entidade, a ação tenta intimidar o jornalista e o veículo com ameaças de ações cíveis e criminais - prática que, infelizmente, se torna comum no Brasil contra o jornalismo independente.
A reportagem original do Portal AZ revelou que o SINDNAPI foi alvo de mandado de busca e apreensão na Operação Sem Desconto, e que, segundo apurações da CGU, a entidade teria recebido R$ 310 milhões entre 2019 e 2024 por meio de descontos diretos nos contracheques de aposentados - muitos dos quais sem autorização formal dos beneficiários.
Um novo relatório da CGU, de 6 de maio, aprofundou ainda mais as suspeitas. Nenhum dos 19 casos de amostragem analisados apresentou documentação válida que comprovasse o consentimento do aposentado. Todos os registros foram considerados “incompletos”, o que impede a comprovação da legalidade das cobranças.
Além disso, o relatório aponta um ritmo anormal de novas filiações: 67.255 adesões em julho de 2023, o equivalente a 3.202 autorizações por dia útil - um número considerado excessivo até mesmo para padrões automatizados.
Os valores repassados à entidade por meio de Acordos de Cooperação Técnica (ACTs) saltaram de R$ 23,3 milhões em 2020 para R$ 154,7 milhões em 2024, um aumento de 564% em apenas quatro anos.
Apesar dos indícios, a Advocacia-Geral da União (AGU) optou por não incluir o SINDNAPI na primeira lista de entidades com bens bloqueados para ressarcimento aos aposentados lesados. A AGU alegou que a lista inicial foi baseada em investigações preliminares, mas admitiu que outras entidades podem ser incluídas posteriormente.
A ausência do nome de Frei Chico entre os investigados - mesmo sendo ele vice-presidente do sindicato - segue como uma das omissões mais gritantes do caso.
Em nota, o Portal AZ reafirmou que não publicou nenhuma informação inverídica, que todo o conteúdo tem amparo em documentos oficiais, e que não vai remover a matéria. O veículo ainda afirmou que está aberto ao direito de resposta, conforme determina a legislação, mas não aceitará o cerceamento da atividade jornalística.
Enquanto isso, a grande mídia permanece quase muda.
O caso expõe, mais uma vez, como a liberdade de imprensa no Brasil segue sendo colocada à prova - principalmente quando envolve figuras poderosas ou parentes de quem ocupa o topo da República. Censurar uma reportagem respaldada por documentos oficiais não é defender a honra, é atacar a verdade.
Quem perde com isso? O aposentado, o contribuinte, a democracia. E o jornalismo. Esse, cada vez mais ameaçado por aqueles que não querem ser investigados - e por aqueles que ainda não são, mas talvez deveriam ser.
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