
Por trás da paisagem seca do sertão nordestino, um novo tipo de "plantação" cresce com vigor: os pés de maconha. O que antes se concentrava no chamado “Polígono da Maconha”, no Oeste de Pernambuco, agora escorre pelas fronteiras e finca raízes em solo piauiense. A Operação Divisa Integrada I, deflagrada nos dias 6 e 7 de junho, revelou o que há muito se sussurra em corredores de delegacias e bastidores da política local: o Piauí entrou de vez no radar do narcotráfico.
Na zona rural de Dormentes (PE), uma plantação estimada em cinco toneladas de maconha foi localizada e destruída pelas forças de segurança. Mas os tentáculos do tráfico avançam bem além da fronteira. Seis municípios piauienses - Marcolândia, Queimada Nova, Paulistana, Betânia, Curral Novo e Jaicós - estão agora oficialmente inseridos na rota da cannabis sativa, não mais apenas como passagem, mas como possível área de plantio, armazenamento e suporte logístico.
Com a participação de mais de 350 agentes, 14 mandados de prisão foram cumpridos e quatro pessoas detidas no Piauí. Mas até o momento, nenhum figurão, nenhum “investidor agrícola” de terno e gravata caiu. Os grandes nomes, como sempre, parecem saber quando sair de cena.
Enquanto o mato ardia em fogo controlado e helicópteros sobrevoavam o sertão de difícil acesso, a pergunta que ecoa é: onde estão os mandantes? Quem financia essa logística rural de guerra? E, mais ainda, como roças inteiras de uma planta ilícita florescem debaixo do nariz das autoridades por anos a fio?
Não é novidade que alguns políticos já estiveram envolvidos com o cultivo da erva, inclusive um ex-prefeito do Sul do Piauí, conforme já foi ventilado em operações anteriores. Não faz muito tempo, a polícia prendeu Nivaldo Roberto Nogueira, ex-prefeito de Sebastião Barros, a 975 km de Teresina, envolvido no plantio da erva. O que surpreende é a recorrência e a expansão do fenômeno. A cada novo escândalo, a cadeia do tráfico parece intacta: pequenos plantadores presos, droga incinerada, manchete nos jornais - e só.
O delegado Matheus Zanatta, da Secretaria de Segurança do Piauí, afirmou que a operação "representa um grande declínio no braço financeiro do tráfico". Pode até ser. Mas enquanto nenhum chefão é algemado, o crime se adapta, rebrota e muda de lugar - como a própria maconha, resistente e resiliente.
Mais do que apreensões pontuais, o que falta é uma resposta estrutural. Um mapeamento sério da rede que sustenta essa economia clandestina - da compra da semente ao escoamento da droga - e, principalmente, a coragem de cortar o problema pela raiz: a impunidade.
A destruição da plantação em Dormentes é um marco. Mas não é vitória enquanto as engrenagens continuam girando no subsolo político e social do sertão nordestino.
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