
Em política, o “não” quase sempre é um “sim” em processo de maturação. A negativa pública é apenas um jogo de cena quando a liderança sabe que a reação a uma imposição pode ser explosiva - dentro ou fora do seu grupo. É esse o roteiro silencioso que estaria sendo seguido pelo senador e ministro Wellington Dias ao articular nos bastidores a entrada do filho, o médico Vinícius Dias, na chapa majoritária do governador Rafael Fonteles nas eleições de 2026.
A movimentação, embora negada publicamente, é cada vez mais perceptível. Há algum tempo, Wellington tem feito manobras - legítimas e ilegítimas, segundo adversários - para posicionar o filho como candidato a vice-governador. A articulação esbarra diretamente nos interesses do MDB, sobretudo do atual vice-governador Themístocles Filho, cacique do partido e figura essencial para a aliança que levou Rafael ao poder.
Para os mais atentos da política piauiense, o enredo não é novidade. Wellington Dias já foi protagonista de movimentos semelhantes. Em 2014, por exemplo, ignorou acordos com o MDB e indicou Regina Sousa como sua vice, deixando Themístocles a ver navios, mesmo após acenos e promessas de aliança. Na época, Wellington chegou a dizer que "conversou com Deus" antes de tomar a decisão. O resultado: um rastro de mágoa e uma ruptura mal resolvida.
A contradição maior talvez esteja no discurso histórico de Wellington Dias. Quando entrou na política, o petista criticava abertamente as oligarquias familiares, a indicação de parentes para cargos de poder e o uso do Estado como extensão do sobrenome. No entanto, seu histórico recente mostra um reposicionamento completo: sua esposa, Rejane Dias, foi deputada estadual, federal, e atualmente é conselheira do Tribunal de Contas do Estado (TCE) - outro órgão que ele condenava como espaço de barganha política.
Agora, ao tentar viabilizar o nome do filho, repete a prática que sempre combateu. E não é uma articulação qualquer. O nome de Vinícius Dias é hoje tratado com naturalidade por setores do PT raiz, que não integram o núcleo duro do governador Rafael Fonteles, mas encontram no herdeiro de Wellington uma forma de manter influência.
A grande questão é que Rafael Fonteles tem seus próprios planos para a vice-governadoria. Ele prefere um nome de confiança pessoal, política e administrativa - alguém da nova geração de secretários técnicos e leais, apelidados de “Rafaboys”, grupo que tem sido base de sustentação da sua gestão.
A eventual escolha de Vinícius quebraria esse modelo e reacenderia atritos históricos com o MDB, que luta para manter Themístocles no posto.
Até recentemente, Vinícius Dias evitava holofotes. São raríssimas as imagens públicas dele em eventos políticos. No entanto, na sexta-feira (30), durante o lançamento do programa “Agora Tem Especialistas”, em Teresina, ele circulou com desenvoltura e falou pela primeira vez sobre uma possível candidatura. Usando o estilo do pai, desconversou e disse que “se for da vontade de Deus, está pronto”.
O silêncio da imprensa tradicional chama atenção. As contradições e as reviravoltas éticas de Wellington Dias são tratadas com normalidade. A mídia, em grande parte, prefere ajustar a narrativa em vez de fazer os questionamentos incômodos. O mesmo vale para setores da esquerda que, há duas décadas, criticavam os métodos das oligarquias e hoje os replicam sem cerimônia.
Wellington Dias está consolidando o que outrora condenava. A nomeação da esposa para o TCE, o protagonismo da família nas eleições e agora a tentativa de alavancar o filho como vice-governador são etapas de um mesmo projeto: a consolidação de uma nova oligarquia no Piauí, com sotaque petista, mas práticas antigas.
A dúvida que fica é: o povo - e o eleitorado do PT - vai aceitar mais uma imposição? Ou a fatura dessa contradição virá nas urnas de 2026?
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