
Em uma declaração explosiva que a grande mídia tenta tratar com luvas de pelica, o presidente nacional do PSB, Carlos Siqueira, revelou algo que, se fosse atribuído a qualquer governo conservador, já estaria incendiando manchetes e convocando CPIs: a ex-presidente Dilma Rousseff usou a ABIN - a Agência Brasileira de Inteligência - para espionar seu adversário político, Eduardo Campos, em 2014.
A acusação não veio de um desafeto bolsonarista ou de um blogueiro anônimo da internet. Veio de um líder histórico da esquerda brasileira, aliado de longa data do ex-governador pernambucano. E com detalhes: Dilma, temendo a ascensão meteórica de Campos, teria interferido diretamente na vida política e institucional do país, colocando agentes da ABIN para acompanhar de perto seus passos - e, como se não bastasse, alimentando greves e sabotagens políticas, como a ocorrida no Porto de Suape, em Pernambuco.
E o mais grave: meses depois, Eduardo Campos morre em um acidente aéreo jamais plenamente explicado. A queda do Cessna Citation em Santos, em agosto de 2014, matou não só um candidato promissor, mas silenciou uma possibilidade real de renovação política fora do espectro petista ou tucano. Uma tragédia que muitos hoje, inclusive dentro da própria família, não tratam como acidente.
O advogado e escritor Antônio Campos, irmão de Eduardo, não tem dúvidas de que houve crime. Ele afirma que o inquérito foi mal conduzido, superficial, e até cita cartas psicografadas que reforçam a tese de traição política. Exoterismo à parte, há um ponto objetivo: a investigação oficial foi inconclusiva, arquivada sem apontar causas definitivas, mesmo com quatro hipóteses levantadas.
O caso chegou a ser reaberto em 2023, após pressão judicial, mas foi novamente engavetado em abril de 2024, com parecer da PGR afirmando que não havia elementos novos. O problema é que o Brasil nunca viu um esforço verdadeiro do Estado em buscar respostas definitivas - e isso levanta uma pergunta incômoda: quem se beneficia do esquecimento?
Se for verdade que Dilma usou a ABIN contra Campos, estamos diante de um escândalo de proporções Watergate tropicais. A espionagem de adversários políticos por órgãos de Estado é uma prática digna de regimes totalitários. É o tipo de comportamento que o PT tanto acusa na direita — mas que, agora, emerge do seu próprio subterrâneo.
Importante destacar: a ABIN não é propriedade do partido que ocupa o Planalto. Ela tem função de Estado, e sua manipulação por interesses eleitorais é crime, além de violação direta da Constituição. Agentes públicos têm o dever de recusar ordens ilegais, sob pena de responderem pessoalmente. Mas quantos se calaram em nome da obediência cega?
O silêncio de João Campos, filho de Eduardo e atual prefeito do Recife, é ensurdecedor. Diferente do tio Antônio, ele prefere manter-se calado, talvez por conveniência política - ou talvez para preservar alianças com o PT, que hoje compõe sua base. Mas por quanto tempo o silêncio será uma estratégia viável?
Se João realmente quiser liderar uma nova esquerda, como deseja Carlos Siqueira, precisará romper com o pacto de silêncio que protege os caciques petistas. Renovação exige coragem. Exige confronto com o passado - inclusive com aliados.
A pergunta que ecoa nos bastidores de Brasília e nas rodas populares é: até onde vai o poder do PT? E, mais ainda: o que a esquerda pode fazer sem ser cobrada?
O discurso moralista da esquerda, que se arvora paladina da democracia e da ética pública, se esfarela quando confrontado com o uso político da máquina estatal. O que aconteceu com Eduardo Campos - e o que pode ter acontecido nos bastidores - é o retrato de um sistema que não admite renovação fora de seus quadros tradicionais. Campos representava o novo. Pagou caro por isso.
A revelação de Carlos Siqueira deveria acender todos os alertas republicanos. Mas, por ora, é recebida com a apatia habitual das instituições e da mídia militante. O Brasil precisa, sim, olhar de novo para aquele avião que caiu em Santos. Precisa investigar, com independência e coragem, se a política matou mais do que reputações em 2014.
Não é uma questão de vingança. É uma questão de justiça. E de memória.
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