
Apesar dos discursos, das campanhas oficiais e das estatísticas que tentam pintar um cenário de “melhora”, a dura realidade impõe outra narrativa: mulheres continuam sendo assassinadas no Brasil por serem mulheres. Em pleno século XXI, 1.450 feminicídios foram registrados em 2024 - isso em um país que já possui uma das legislações mais duras do mundo contra a violência doméstica, a Lei Maria da Penha. E, ainda assim, não basta.
A cada 24 horas, 13 mulheres foram vítimas de violência no Brasil em 2024. Ao todo, foram registrados 4.181 casos no ano, o que representa um aumento alarmante de 12,4% em comparação com 2023. Os dados da Rede de Observatórios de Segurança escancaram uma realidade cruel: ser mulher no país ainda é um risco diário.
No Piauí, o cenário é ainda mais alarmante: um crescimento de 32% nos casos de feminicídio em relação ao ano anterior. Somente em 2024, foram 56 mulheres mortas, muitas dentro da própria casa, quase sempre por parceiros ou ex-parceiros. E o mais revoltante: 87,85% delas jamais haviam sequer registrado um boletim de ocorrência. O silêncio é cúmplice, e o Estado, ausente.
O Relatório Anual Socioeconômico da Mulher (RASEAM 2025), apresentado pelo Ministério das Mulheres, divulgou uma redução nacional de 5,07% na violência letal contra mulheres - uma estatística celebrada, ainda que tímida. Mas o dado geral esconde tragédias locais. No Nordeste, especialmente no Piauí, o número de mortes cresce e expõe uma pergunta incômoda: onde estão as políticas públicas de fato eficazes?
A audiência pública marcada para esta sexta-feira (30), na Assembleia Legislativa do Piauí (ALEPI), tenta encontrar respostas. Convocada pelas deputadas Elisângela Moura (PCdoB) e Gracinha Moraes Sousa (Progressistas), a audiência reunirá representantes do Judiciário, Executivo, Ministério Público, Defensoria, forças de segurança e sociedade civil. Um esforço coletivo que, se não sair do papel, corre o risco de ser apenas mais um ato simbólico diante de uma tragédia anunciada.
A cada 17 horas, uma mulher é morta nos nove Estados monitorados pela Rede de Observatórios da Segurança. Só em 2024, foram registrados 531 feminicídios nesses unidades da Federação - 70% cometidos por companheiros ou ex-companheiros. Em média, 13 mulheres sofreram violência por dia no Brasil. Já os estupros, somaram mais de 71 mil no ano, o que representa quase 200 por dia. Ainda assim, 90% das vítimas não contam com medida protetiva e seguem vulneráveis dentro de casa.
As estatísticas chocam, mas não surpreendem: 71,6% das agressões ocorrem dentro da residência da vítima, e 76,6% dos agressores são homens conhecidos, quase sempre com laços afetivos ou familiares.
Enquanto o governo federal destaca ações como o pacto "Feminicídio Zero" e acordos com empresas privadas - como o recém-assinado com a plataforma iFood - o crescimento da violência em Estados como o Piauí levanta a dúvida: não está se fazendo o suficiente ou está se fazendo errado?
O feminismo institucional, por sua vez, parece enfrentar um dilema entre a atuação prática e a sobrevivência política. Há mobilizações, há discursos, mas o efeito parece limitado diante da carnificina cotidiana que segue deixando mães, filhas, amigas e companheiras mortas.
A deputada Elisângela Moura alerta: “O feminicídio é a face mais brutal da desigualdade de gênero. Enfrentar isso exige ações integradas, permanentes e efetivas”. Mas será que a sociedade e os governos, no caso do Piauí, do PT, estão prontos para deixar o discurso e assumir a responsabilidade?
É preciso mais do que audiências públicas. É preciso política pública com orçamento, delegacias especializadas funcionando 24 horas, acolhimento real, educação de base e punição rigorosa. Cada mulher assassinada é uma falha sistêmica que escancara uma estrutura social, jurídica e política que continua tratando a violência de gênero como estatística - e não como urgência.
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