
O terceiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva parece ter virado um grande número de circo: malabarismo com os projetos, acrobacias na Esplanada, palhaçadas nos bastidores e, claro, a velha sessão de “toma lá, dá cá” para manter o show de pé. Só que, desta vez, a lona está rasgada, a bilheteria esvaziada, e o palhaço já não arranca aplausos como antes.
Com um Congresso cada vez mais refém do Centrão - esse bloco político amorfo, mas faminto - o governo se vê obrigado a abrir mão de cargos e estruturas para tentar garantir votos. A fome do Centrão por espaços no poder é notória, mas até para ele, o cardápio oferecido tem sido indigesto.
Com a reforma ministerial travada e a popularidade presidencial em queda livre - mais baixa que "vazio" de cobra, como se diz no Nordeste - Lula tenta agora oferecer a presidência dos Correios como trunfo. A pergunta é: será que isso basta para “encantar” os pragmáticos senhores do Centrão?
A estatal que um dia foi símbolo de eficiência no serviço postal, hoje amarga prejuízo bilionário de R$ 2,6 bilhões por ano, segundo dados recentes. A situação crítica se agravou durante a gestão de Fabiano Silva dos Santos, advogado ligado ao grupo Prerrogativas, notoriamente alinhado com o presidente.
Entre os desgastes estão:
Salário turbinado da cúpula diretiva
Atraso no repasse do FGTS dos funcionários
Corte do plano de saúde
Contratos milionários sob pouca transparência
Tudo isso turbinado pela desconfiança de que a gestão atual inviabilizou a empresa de propósito, como uma forma de torná-la mais “negociável” politicamente.
O que antes era um desejo latente por ministérios agora virou uma negociação à base de sobras do segundo escalão. A presidência dos Correios está no radar de partidos como o União Brasil e o MDB, com o senador Davi Alcolumbre liderando a fila - ele, um velho conhecido do jogo de barganhas em Brasília.
Mas há um ponto importante: o Centrão não fecha com governo só porque ganhou cargos. A relação é utilitária, instantânea e condicional. Muitos dizem que o grupo já percebeu a fraqueza de Lula e prefere manter o governo sangrando, fraco e dependente, do que embarcar de vez numa gestão com baixa previsibilidade de poder e apoio popular.
O enredo que se desenha revela um governo acuado, que troca o pouco prestígio que lhe resta por apoio legislativo efêmero. A governabilidade virou sinônimo de “negociabilidade” e os princípios progressistas são, cada vez mais, sacrificados no altar do realismo político.
Se o Centrão quiser os Correios, levará. Se quiser mais, provavelmente também levará. Mas a grande dúvida é: vale a pena para Lula entregar tudo isso por tão pouco em troca?
Quando um presidente negocia sob fraqueza, já perdeu metade da autoridade. E quando a outra metade depende do apetite do Centrão, o país inteiro fica à mercê de interesses particulares.
Enquanto isso, o povo - esse que paga impostos, enfrenta filas nos hospitais e sente o preço dos alimentos - não recebe nenhuma carta com boas notícias dos Correios.
Porque, neste governo, até a estatal de entregar cartas virou recado do fracasso.
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