
A denúncia é avassaladora: mais de R$ 6,3 bilhões desviados de aposentadorias, pensões e benefícios sociais do INSS, com foco em aposentados, indígenas e pessoas com deficiência. No centro da acusação, um consórcio criminoso que, segundo o deputado federal Coronel Chrisóstomo (PL/RO), opera dentro da estrutura do Ministério da Previdência Social com o conhecimento - e a omissão - do ministro Carlos Lupi. A entrevista exclusiva do parlamentar ao Correio Braziliense não apenas revela os bastidores da proposta de CPI, como escancara a letargia de setores políticos diante do maior escândalo previdenciário da história recente.
Entre as revelações de maior impacto, uma chama atenção: “O Piauí é o estado em que mais roubaram dos aposentados”, afirmou Chrisóstomo. Mesmo diante da gravidade do dado, reina o silêncio entre os deputados federais do Piauí. Nenhum deles - aliado ou opositor ao governo Lula - se pronunciou em defesa dos idosos lesados. Nenhuma assinatura foi dada ao pedido de instalação da CPI por membros da bancada piauiense. A pergunta que paira, incômoda, é inevitável: o que temem? Por que tamanha subserviência?
A mesma postura tem sido adotada por 100% dos deputados estaduais e 100% dos vereadores. Nem mesmo o comandante-em-chefe do Estado, o governador Rafael Fonteles, do Partido dos Trabalhadores, teceu uma única frase sobre o consórcio criminoso operado de dentro do INSS, em Brasília. "Mas o que o Fonteles tem a ver com esse esquema?", perguntaria um petista 'aloprado'. Em princípio, nada. Mas, sendo o Piauí o Estado que proporcionalmente mais votos deu ao presidente Lula em 2022 - e também o que mais aposentados teve lesados pelo esquema -, seria de bom tom que o governador, ao menos, se solidarizasse com os aposentados e pensionistas prejudicados.
A acusação de conivência recai sobre o ministro Carlos Lupi, que teria admitido conhecimento prévio das fraudes desde 2023, sem ter tomado providência alguma. Para Chrisóstomo, sua permanência no cargo é insustentável e representa risco às investigações da Polícia Federal e da CGU, que já apuram o esquema. “O Lupi foi irresponsável e conivente com o roubo”, dispara o parlamentar.
A entrevista traz ainda dados sobre o alcance da fraude: mais de sete milhões de brasileiros teriam sido afetados, alguns com descontos indevidos nos contracheques e outros lesados por sindicatos fantasmas. Há ainda relatos de envolvidos que teriam usado o dinheiro desviado para viagens à Europa e compras milionárias - um retrato de escárnio à população mais vulnerável do país.
Apesar da gravidade, a base governista tenta jogar a culpa no governo Bolsonaro. A tática diversionista, porém, não se sustenta diante dos números e dos documentos revelados. Chrisóstomo admite que o problema já existia, mas afirma que os desvios se tornaram exponenciais em 2023 e 2024, já sob o comando de Lula. O epicentro do crime, segundo ele, segue dentro do INSS, com sindicatos aparelhados, um deles, o Sindicato Nacional dos Aposentados, Pensionistas e Idosos da Força Sindical (Sindnapi) tem na vice-presidência, o irmão do presidente Lula, José Ferreira da Silva, o "Frei Chico".
A proposta de CPI da Câmara já conta com 185 assinaturas, entre elas de deputados de centro-esquerda, o que demonstra o potencial suprapartidário da iniciativa. Mesmo assim, o presidente da Casa, Hugo Motta (Republicanos/PB) - cujo Estado é o segundo mais afetado pela fraude - ainda não pautou o pedido. A pergunta, novamente, é desconcertante: por quê?
O silêncio da bancada piauiense também é ensurdecedor. Nenhuma nota, nenhum discurso, nenhum gesto de indignação. A omissão diante da denúncia de que o Piauí lidera o ranking do roubo aos aposentados é vergonhosa. Se não é cumplicidade, é covardia.
A população espera respostas. Espera apurações sérias. Espera a devolução do dinheiro. E espera que seus representantes, eleitos para defender os interesses do povo, não se escondam atrás de conveniências partidárias ou alianças palacianas. A omissão, nesse caso, não é neutra. É criminosa.
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