
Na agenda religiosa do cristianismo, a Sexta-Feira Santa é o dia do luto sagrado. Um dia sem missa, sem carne e sem festa. Para os fiéis, é quando o céu se calou diante do escândalo da cruz. Mas o que está por trás dessa tradição? Qual o verdadeiro sentido dessa data — e até que ponto ela é um reflexo fiel das Escrituras ou apenas mais um costume eclesiástico que o tempo canonizou?
A Sexta-Feira Santa, também chamada de Sexta da Paixão, é o dia em que, segundo a tradição cristã, Jesus foi crucificado. Marca o ápice do drama da Semana Santa - uma narrativa de traição, julgamento político-religioso e sacrifício. Dois dias depois, no Domingo de Páscoa, a história cristã aponta para a ressurreição de Cristo.
Mas enquanto o domingo representa a glória, a sexta é o abismo. O céu escurece. O véu do templo se rasga. A cruz se ergue. Jesus morre. É um dia de silêncio pesado, de recolhimento - e para os católicos, de abstenção de carne e celebrações litúrgicas mais sóbrias.
A origem da Páscoa é judaica. A palavra vem do hebraico Pesach, que significa "passagem". No Antigo Testamento, ela celebra a libertação dos hebreus da escravidão no Egito. Quando Jesus, um judeu, participa da Última Ceia, está, na verdade, celebrando essa Páscoa.
O cristianismo reinterpretou esse evento como uma nova aliança, onde o cordeiro sacrificado passa a ser o próprio Cristo. Ou seja, a Páscoa é um evento judaico em sua origem, cristão em sua ressignificação. A Sexta-Feira Santa, por sua vez, só faz sentido dentro da lógica da Páscoa cristã: a morte que precede a vitória sobre ela.
A morte de Cristo é um dos eventos mais documentados nos evangelhos. Mateus, Marcos, Lucas e João narram, com nuances distintas, o calvário. Mas a institucionalização da Sexta-Feira Santa como data litúrgica não vem da Bíblia - vem da tradição e da liturgia da Igreja, especialmente após o Concílio de Niceia (325 d.C.), que estabeleceu inclusive a fórmula de cálculo para a data da Páscoa.
Portanto, embora o fato histórico da crucificação tenha base bíblica, a maneira como ele é celebrado - com jejum, horários específicos e ausência de missa - é uma construção litúrgica da tradição católica.
Sim, o Vaticano apoia e celebra a Sexta-Feira Santa com todo o peso simbólico que ela carrega. O Papa preside a cerimônia da Paixão do Senhor, geralmente às 15h (hora simbólica da morte de Cristo), com liturgia da palavra, adoração da cruz e distribuição da comunhão com hóstias consagradas no dia anterior. Não há consagração nesse dia - um gesto que realça o vazio litúrgico da morte.
À noite, é realizada a comovente Via Crucis no Coliseu de Roma, onde o Papa acompanha a reencenação das 14 estações da Paixão de Cristo, reforçando a narrativa do sofrimento humano e da solidariedade divina.
A carne vermelha, na tradição cristã, simboliza festa e sacrifício animal. Abster-se dela é um sinal de penitência, de respeito ao sangue derramado por Cristo. Muitos substituem por peixe, que era símbolo dos cristãos primitivos. A regra, embora não universal entre os cristãos, é um dos costumes mais enraizados no catolicismo popular.
Encenações como a Paixão de Cristo de Nova Jerusalém, em Pernambuco, mostram a força dessa narrativa. Milhares assistem à reconstituição da dor de Jesus, com direito a soldados romanos, cruz de madeira e gritos de multidão. A pergunta que se impõe é: será que ainda se sente o peso espiritual da cruz, ou tudo virou performance?
A Sexta-Feira Santa continua a ser um dia de interrogação profunda. Para os que creem, é um chamado ao silêncio, ao arrependimento e à esperança que nasce da dor. Para os céticos, pode ser apenas uma construção ritual. Mas para todos, é uma data que toca temas universais: sacrifício, injustiça, morte e redenção.
Talvez o verdadeiro sentido da Sexta-Feira Santa esteja justamente aí - não na cruz, mas no que cada um faz diante dela.
Para os fiéis católicos do mundo inteiro, o túmulo vazio do domingo só faz sentido para quem contempla com seriedade a dor da sexta.
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