
Sabrina Gomes, uma jovem de 24 anos de Fortaleza, trava uma luta que parece ser maior do que o seu diagnóstico de Síndrome de Cushing e timoma – um tumor no tórax que compromete sua respiração, rins e até a cor de sua pele. Após anos de cirurgias, quimioterapia e radioterapia, Sabrina encontrou no medicamento lutécio radioativo uma esperança de tratamento. Contudo, embora tenha obtido decisão judicial favorável há dez meses, a Secretaria de Saúde do Ceará (Sesa) ainda não conseguiu adquirir o medicamento, um tratamento estimado em R$ 130 mil.
O tumor de Sabrina é raríssimo e produz o hormônio ACTH, geralmente regulado pela hipófise. Este hormônio, em excesso, estimula a produção descontrolada de cortisol pelas glândulas adrenais, provocando um agravamento de sua saúde. Quando o tratamento convencional não deu mais resultados, Sabrina recorreu à Justiça para obter o lutécio, uma droga radioativa capaz de atacar diretamente as células cancerígenas, destruindo-as e estabilizando seu estado clínico.
Causas e consequências do atraso
A Sesa afirma que o tratamento com lutécio não está no rol do SUS e que a compra exige um processo complexo, embora já tenha ocorrido uma decisão de urgência. No entanto, as burocracias estão minando a saúde da paciente, que relata complicações crescentes, como água nos pulmões e extrema fadiga. Sabrina não é a única: vários pacientes com condições raras enfrentam uma “batalha dupla” – contra a doença e contra os entraves institucionais.
Diagnóstico e tratamento de uma doença rara e complexa
A endocrinologista Ana Rosa Quidute, do Hospital Universitário Walter Cantídio, que acompanha o caso, explica que o tumor de Sabrina é extremamente raro. Em situações normais, o ACTH é produzido pelo cérebro em quantidades adequadas, mas, no caso da jovem, o tumor gera uma produção descontrolada. Em um ponto crítico, ela teve de passar por uma cirurgia para remover as glândulas adrenais, interrompendo a produção de cortisol. Contudo, isso causou um efeito colateral inesperado: a hiperpigmentação, pois o excesso de ACTH resultante do tumor estimula células da pele a produzir melanina.
Esperança no lutécio radioativo
A equipe médica de Sabrina sugeriu o lutécio, pois suas células cancerígenas apresentam receptores que poderiam capturar o medicamento, diminuindo o tumor. Com isso, ela teria uma chance de estabilização, e até de reversão, dos sintomas que a debilitam. Contudo, para que o tratamento comece, é crucial que a Sesa conclua a aquisição.
Posicionamento da Sesa e a crítica à saúde pública
Segundo Breno Novais, coordenador de monitoramento da Sesa, a compra do lutécio segue trâmites que demandam “segurança e celeridade”. Apesar disso, nenhuma solução definitiva foi oferecida. O caso de Sabrina evidencia o dilema enfrentado por pacientes que necessitam de terapias fora do escopo do SUS e chama a atenção para a urgência em estabelecer vias mais eficientes para aquisição de medicamentos essenciais em situações de risco iminente.
O drama de Sabrina revela uma face crua da saúde pública, onde a resposta lenta e insuficiente pode custar a vida de pessoas que lutam por uma sobrevida digna e que só podem contar com a Justiça para garantir um direito essencial: a chance de lutar pela própria vida.
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