
A batata de Davi Alcolumbre está fritando. E o azeite vem diretamente do Palácio do Planalto. O presidente Lula teria encontrado uma maneira de deixar o presidente do Senado falando sozinho na disputa pela sucessão da Casa. Alguém está surpreso? Talvez os incautos, os aloprados e aqueles que ainda acreditam que a palavra do petista vale alguma coisa.
Os mais íntimos de Lula costumam dizer que quem conhece o presidente não o compra. É uma maneira elegante de dizer que acreditar em suas promessas exige uma dose considerável de ingenuidade. Afinal, como diz o velho ditado, o que Lula fala não se escreve. O presidente muda de ideia com a mesma facilidade com que troca de roupa. E quem acompanhou os bastidores da última campanha eleitoral sabe muito bem do que estamos falando.
Na verdade, para interpretar Lula, é recomendável fazer a leitura às avessas. Quando promete uma coisa, convém observar o que está preparando na direção contrária. Basta lembrar os discursos sobre transparência, os sigilos de 100 anos e a defesa de critérios técnicos para as indicações ao Supremo Tribunal Federal. Na prática, a conversa costuma ser outra.
Agora, a vítima da vez pode ser Davi Alcolumbre. O senador já prestou seus serviços, ocupou seu espaço no tabuleiro e teve sua utilidade política. Mas, em Brasília, aliado não é patrimônio. É ferramenta. E ferramenta usada demais acaba encostada no depósito.
Lula não esquece as derrotas impostas por Alcolumbre, especialmente a rejeição de Jorge Messias para o Supremo Tribunal Federal. Aquilo não foi apenas um contratempo político. Foi uma desfeita que atingiu diretamente o projeto presidencial de controlar politicamente a composição da mais alta Corte do país. E o presidente, como se sabe, não costuma apreciar quem lhe diz não.
Segundo informações de bastidores, a estratégia seria manter as aparências até dezembro e, depois, procurar uma alternativa para abandonar Alcolumbre à própria sorte. O apoio ao senador só permaneceria como último recurso, caso não exista outro caminho para enfrentar o avanço da oposição, especialmente a articulação de Rogério Marinho.
Há ainda um detalhe interessante: Lula aposta na possibilidade de uma negociação pragmática com o Centrão, agora com Arthur Lira no Senado. Traduzindo do dialeto de Brasília: se aparecer um negócio politicamente mais vantajoso, Alcolumbre pode descobrir que amizade presidencial é igual a contrato de gaveta. Só vale enquanto interessa.
E a situação do senador não parece exatamente confortável. Segundo a coluna de Beatriz Ribeiro, nem mesmo os outros dois senadores do Amapá estariam dispostos a apoiá-lo. Quando a dificuldade começa dentro de casa, é porque a coisa está ficando complicada.
Resta saber se Alcolumbre acreditou mesmo no perdão de Lula. Se acreditou, talvez tenha cometido um erro elementar de avaliação. O senador já experimentou o gosto de contrariar o presidente. Agora pode experimentar o outro lado da moeda: ser contrariado pelo mesmo personagem.
No fim das contas, a política brasileira continua oferecendo espetáculos curiosos. Lula precisa de Alcolumbre para determinadas operações, mas não necessariamente para o futuro. Alcolumbre precisa de Lula para manter sua influência, mas talvez tenha esquecido que o presidente não confunde conveniência com amizade.
Em Brasília, a traição é uma via de mão dupla. Alcolumbre já teria dado uma rasteira em Lula. Agora, ao que tudo indica, Lula prepara o troco. E não será com um pedido de desculpas. Será com um empurrão para fora do tabuleiro.
A batata está no fogo. O azeite é do Planalto. E, pelo andar da carruagem, o senador pode acabar descobrindo que, na cozinha de Lula, até os aliados viram churrasco político.
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