
O presidente Lula da Silva e seu governo parecem ter desenvolvido uma especialidade: produzir contradições entre o discurso e a realidade.
Durante quase quatro anos, o presidente e seus ministros repetiram o mantra de que o Brasil estava no caminho certo, que a economia ia bem, que o desemprego caía, que o país crescia e que o governo promovia uma verdadeira transformação social.
Agora, depois de conquistar mais um mandato nas urnas, Lula aparece falando em responsabilidade fiscal e afirmando que o Brasil precisa ter uma economia arrumada para atrair investimentos.
A declaração foi feita nesta quinta-feira (5), durante reunião do Conselho Nacional para Industrialização de Minerais Críticos e Estratégicos. Ao defender a necessidade de atrair capital estrangeiro, o presidente afirmou que investidores precisam encontrar um ambiente econômico organizado, com segurança jurídica e responsabilidade fiscal.
Lula foi ainda mais explícito: "Para a gente atrair tem que ter economia arrumada. Ninguém vai querer fazer investimento numa economia totalmente desordenada. As pessoas querem saber se estamos falando sério".
Em outro momento, afirmou que o Brasil precisa demonstrar seriedade e que não basta atrair investidores por causa dos "belos cabelos do Lula e do Alckmin" ou dos "olhos do Dario", ministro da Fazenda. É preciso oferecer condições para que o capital encontre segurança e retorno financeiro.
Ora, de que casa o presidente está falando? Quem deixou a casa desarrumada? E, principalmente, quem está encarregado de cuidar dela?
A contradição política é evidente. Lula é o presidente da República. Não recebeu o governo ontem, não herdou a administração de um adversário e não pode atribuir a terceiros a responsabilidade pelos rumos da economia. É ele quem escolheu os ministros, definiu as prioridades, estabeleceu a política econômica e conduz o governo.
E há outro detalhe que merece atenção. Horas antes dessas declarações, Lula havia se reunido com o vice-presidente Geraldo Alckmin, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, o ex-ministro Fernando Haddad e economistas para discutir os rumos da economia. O encontro ocorreu em meio às preocupações com as contas públicas e a sustentabilidade da dívida brasileira.
O cenário não é exatamente de tranquilidade. No dia anterior, o Banco Central manteve a taxa Selic em 13,75% ao ano, interrompendo o ciclo de redução dos juros. A dívida pública e as incertezas sobre a condução da política fiscal continuam no centro das preocupações de investidores e economistas.
Na reunião, o ministro Dario Durigan também sinalizou a intenção de reforçar as regras fiscais existentes e melhorar o resultado primário nos próximos anos. Ainda não foram apresentadas medidas concretas de ajuste.
Lula também defendeu parcerias internacionais para exploração e industrialização de minerais estratégicos, afirmando que não deseja que o Estado seja o senhor supremo dessas atividades. É uma sinalização favorável à participação do capital privado e estrangeiro em setores importantes da economia.
Tudo isso seria perfeitamente razoável se não existisse uma pergunta anterior: por que o governo está reconhecendo agora a necessidade de organizar as contas e recuperar a confiança dos investidores?
Se a casa precisa de arrumação, é legítimo perguntar por que ela não foi organizada durante esses quase quatro anos. Se as contas públicas exigem ajustes, se o ambiente econômico precisa recuperar a confiança do mercado e se o governo reconhece a necessidade de mudanças, então o discurso de que tudo vai muito bem começa a perder sustentação.
Não dá para passar quase quatro anos anunciando que a casa é um espetáculo e, na hora de receber os convidados, admitir que é preciso fazer uma reforma.
O problema é que Lula não é um visitante preocupado com a organização da casa. É o proprietário político da administração, o responsável pelas escolhas e o comandante da equipe que deveria mantê-la em ordem.
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