
Como num exercício de desbloqueio criativo, pensar em meu pai é recordar, na infância, de juntar os jornais que ele deixava no jardim, levados pelo vento, debaixo do grande pé de manga, todo domingo de manhã. Também lembro dele deitado na rede, revendo suas cirurgias e pedindo para eu retirar suas meias finas. E o que dizer dos bordões: “Me satisfaça com sua ausência”, “É uma luta para elevar o nível cultural desse povo”, “Agora, se me dão licença, vou me retirar para os meus aposentos”.
Filmes de guerra, música clássica, biografias, forró de Luiz Gonzaga no som, em viagens à praia. Tudo isso é a cara de meu pai. Exatamente numa dessas viagens, lembro-me de, na adolescência, perceber seu ritmo constante e mais lento do que os outros carros. Eu e meus irmãos notávamos que vários carros nos passavam e pedíamos para ele acelerar, para encurtar a viagem. A resposta foi:
— Deixem eles passarem...
Nessa mesma viagem, um dos carros que haviam passado na nossa frente bateu e estancou no meio do caminho. Durante o percurso do dia a dia, muitos nos atravessam, nos “fecham”, achando que estão em vantagem. Nos sentimos lentos e, muitas vezes, tudo o que nos resta é fazer as pazes com as esperas da vida. Fazer as pazes com nosso ritmo, no melhor estilo “há um tempo para tudo debaixo dos céus”.
Hoje, ao perceber que várias áreas de minha vida entraram em uma direção errada, diminuíram de velocidade, me pergunto qual placa segui ou deixei de seguir. Mas, a esta altura, não importa. Deixar várias pessoas passarem me deu asas, pois bebi o elixir de minha liberdade, que transbordou e me fez ver as coisas de outro ângulo.
Deixem eles passarem. Deixem eles ultrapassarem a velocidade certa dos acontecimentos da vida, deixem eles pensarem que estão ganhando, deixem eles descobrirem por conta própria que a direção é mais importante que a velocidade (como diz a famosa frase).
Deixem eles descobrirem que quem ganha não é quem chega primeiro, mas quem aproveitou melhor a viagem, quem olhou pela janela e apreciou a vista. A vida não é uma corrida de fórmula 1, com champanhe no final. No final, o único prêmio que vale a pena é o amor-próprio genuíno. Todo mundo desce do pódio.
Porque, no final, a vida é sobre quem desacelera, em tudo. No querer, nas vontades, na estrada. Essa pressa nos tira o gosto da vida, dos pequenos detalhes que muitas vezes fazem a diferença. A felicidade tem carteira de motorista, mas não pega multa de excesso de velocidade, e quem monitora é o coração.
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