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Política ÓBVIO ULULANTE

Fake news, vídeos retirados e o óbvio ululante: a disputa digital também cobra seu preço

Pesquisas apontam Flávio Bolsonaro à frente em diferentes levantamentos, enquanto decisões judiciais sobre vídeos de campanha reacendem o debate sobre desinformação, influência nas redes sociais e o impacto das declarações polêmicas na corrida pelo voto dos indecisos

09/10/2026 às 19h24
Por: Douglas Ferreira
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Vorcaro financiou ambos os filmes, porém o de Lula pagou por fora, eis a grande diferença - Foto: Reprodução/Imagem editada por IA
Vorcaro financiou ambos os filmes, porém o de Lula pagou por fora, eis a grande diferença - Foto: Reprodução/Imagem editada por IA

A disputa pelo segundo turno não se limita aos números das pesquisas. As redes sociais se transformaram em um campo decisivo de confronto, no qual vídeos, acusações e narrativas políticas podem influenciar a percepção dos eleitores. Nesse ambiente, a responsabilidade pela informação divulgada precisa valer para todos, independentemente do partido ou da posição que ocupem na disputa.

A retirada de vídeos publicados pelos deputados André Janones e Lindbergh Farias, por determinação do ministro André Mendonça, do Tribunal Superior Eleitoral, acrescenta um fato concreto ao debate. Não se trata simplesmente de uma acusação feita por adversários: houve uma decisão judicial determinando a remoção de conteúdo. O episódio exige que se examine o que foi divulgado, quais fundamentos foram apresentados à Justiça e por que o material foi considerado passível de retirada. A decisão, por si só, não quantifica eventual prejuízo eleitoral, mas torna legítima a discussão sobre os limites da propaganda política e os efeitos da desinformação.

O mesmo rigor deve ser aplicado às publicações envolvendo Lula e a primeira-dama Janja. Quando conteúdos de campanha são questionados judicialmente e retirados do ar, a discussão não pode terminar com a simples exclusão dos vídeos. É necessário avaliar as afirmações divulgadas, sua sustentação factual e o potencial de confundir o eleitor. A liberdade de expressão não transforma alegações sem fundamento em fatos, assim como uma disputa eleitoral acirrada não autoriza que qualquer crítica seja automaticamente classificada como mentira.

No caso de Ana Elisa Santos Silva, o debate também precisa ir além dos rótulos. Suas declarações públicas sobre aborto, religião e outras pautas controversas devem ser examinadas a partir dos registros originais e de suas manifestações efetivamente documentadas. Se há publicações que sustentam as críticas, elas precisam ser apresentadas e contextualizadas, não descartadas de antemão como meras ilações. A internet guarda cópias, capturas e arquivos de conteúdos que eventualmente desaparecem dos perfis originais. É justamente por isso que a verificação deve se apoiar no material concreto.

A expressão popular “a Nossa Senhora do Print” resume, com ironia, esse fenômeno: apagar uma publicação não significa necessariamente apagar seu registro. Mas uma captura de tela também precisa ser autenticada e contextualizada, sobretudo quando utilizada para atribuir a alguém uma declaração grave. O óbvio ululante, quando efetivamente demonstrado pelos documentos, não deve ser escondido atrás de uma cautela que acabe produzindo o efeito contrário ao jornalismo: deixar de informar.

O impacto eleitoral dessas controvérsias, entretanto, merece uma distinção. É plausível que declarações polêmicas e conteúdos enganosos provoquem dúvidas, indignação ou mudança de percepção entre eleitores indecisos. Atribuir a esses episódios uma quantidade determinada de votos perdidos, porém, depende de pesquisas ou outras evidências capazes de demonstrar esse efeito. A análise política pode apontar o risco e discutir as consequências possíveis sem apresentar como medido aquilo que ainda não foi quantificado.

Enquanto isso, as pesquisas divulgadas para o segundo turno registram movimentos relevantes na disputa entre Flávio Bolsonaro e Lula. Os levantamentos devem ser comparados considerando instituto, datas de campo, margem de erro e população pesquisada. A sucessão de resultados pode indicar uma mudança no cenário eleitoral, mas cada pesquisa é um retrato de determinado momento, não uma garantia do resultado final.

Com a votação marcada para 25 de outubro, os dias restantes ganham importância. A campanha terá de disputar votos, responder às controvérsias e convencer eleitores que ainda não decidiram seu voto. Nesse cenário, o debate sobre desinformação não pode ser seletivo: as mesmas exigências de transparência, comprovação e responsabilidade devem valer para aliados e adversários. O eleitor tem o direito de conhecer as declarações, examinar as provas e tirar suas próprias conclusões — sem que o jornalismo esconda fatos documentados, mas também sem transformar hipóteses em certezas.

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