
Tiririca, Manoel Gomes, o famoso Caneta Azul, Menina da Bota e Papa-Capim têm algo em comum além da fama: querem trocar as telas do celular pelo plenário da Câmara dos Deputados.
Querem Brasília. Querem chegar ao Congresso Nacional. Querem representar, cada um a seu modo, os eleitores de seus respectivos Estados.
E aí vem a pergunta que não quer calar: seguidor é eleitor?
Porque uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa.
Ter milhares, centenas de milhares ou até milhões de seguidores não significa, necessariamente, ter a mesma quantidade de votos. A internet pode produzir fama, engajamento, memes, curtidas, compartilhamentos e até idolatria. Mas urna eletrônica não conta curtida. Conta voto.
O sujeito pode seguir alguém porque acha a pessoa engraçada, curiosa, irreverente, hilária, sarcástica ou simplesmente porque seus vídeos ajudam a passar o tempo. Pode até seguir para rir da figura. E isso não significa, necessariamente, que queira ver o personagem sentado numa cadeira do Congresso Nacional.
Agora, também existe o outro lado. Há quem siga, admire, acompanhe e, principalmente, se identifique com determinada personalidade. Nesse caso, o seguidor pode perfeitamente virar eleitor.
É aí que mora a grande incógnita dessas candidaturas: será que a fama digital consegue atravessar a tela do celular e chegar à urna?
Tiririca já conhece esse caminho. Eleito deputado federal pela primeira vez em 2010, está novamente na disputa em 2026, agora pelo Ceará, com o número 5522.
Manoel Gomes, o Caneta Azul, também resolveu transformar a popularidade conquistada na internet em projeto político. Depois de sua passagem pelas urnas em 2022, quando disputou vaga de deputado estadual no Maranhão, agora tenta chegar à Câmara dos Deputados por São Paulo. O candidato do Avante usa justamente a identidade que o tornou conhecido nacionalmente: Caneta Azul – Manoel Gomes, número 7030.
Tem ainda a Menina da Bota, Maria José Mendes, que disputa uma vaga de deputada federal por Minas Gerais. A influenciadora chegou à política carregando a popularidade construída nas redes e declarou, em sua propaganda eleitoral, que pretende “mudar a vida” da própria família.
E não poderia faltar o Papa-Capim, personagem que saiu dos vídeos de humor para a disputa eleitoral. Cláudio dos Santos Nogueira tenta uma cadeira na Câmara por Goiás pelo MDB.
É um fenômeno interessante. E não é exclusivamente brasileiro, embora o Brasil tenha especial talento para transformar celebridade em fenômeno eleitoral.
A política brasileira já viu de tudo. Já elegeu humorista, cantor, apresentador, atleta, artista e uma infinidade de figuras conhecidas antes de entrarem na política.
Mas fama resolve eleição?
Não necessariamente.
Popularidade ajuda a ser conhecido. Ser conhecido não significa ser escolhido. E ser seguido nas redes sociais definitivamente não equivale a ter um voto garantido.
O eleitor pode admirar o artista e não gostar do político. Pode gostar do personagem e não se identificar com as ideias do candidato. Pode achar o sujeito ótimo para fazer vídeo, mas não necessariamente querer vê-lo votando leis, discutindo orçamento, fiscalizando o Executivo ou representando seu Estado.
E é justamente aí que a política deixa de ser meme e começa a ficar séria.
No Piauí, por exemplo, também tivemos personagens que transformaram a política em uma espécie de capítulo à parte do folclore eleitoral. Lourdes Melo, do PCO, é um desses nomes. E desta vez ela não aparece na urna para disputar o Governo do Estado: o TRE-PI indeferiu seu registro de candidatura, decisão que ainda poderia ser contestada por recurso.
Lourdes, entretanto, já se tornou uma personagem conhecida das eleições piauienses. Sua presença em sucessivas disputas majoritárias acabou criando uma espécie de tradição eleitoral própria.
O PCO também insiste em apresentar candidaturas, mesmo enfrentando enormes dificuldades para transformar essa presença política em representação institucional.
E isso, goste-se ou não, também faz parte da democracia.
Porque democracia não é somente eleger quem tem milhões de seguidores. Não é somente escolher quem aparece mais na televisão. Não é somente votar em quem lidera pesquisa.
Democracia é permitir que diferentes pessoas e grupos apresentem seus nomes e suas ideias ao eleitor.
No fim das contas, a urna é o lugar onde a celebridade encontra a política.
E lá não existe curtida, comentário, compartilhamento ou visualização.
Existe uma coisa só: voto.
A grande pergunta de 2026, portanto, talvez não seja quem tem mais seguidores.
É saber quantos desses seguidores estarão dispostos a apertar o botão verde no dia da eleição.
Porque, como diria o velho e sábio senso comum: uma coisa é seguir. Outra, bem diferente, é votar.
A cada eleição a professora Lourdes Melo lidera. Não em votos, mas em memes. Cofira:
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