
Quem é Gyselle Soares, a Gyselle Cajuína? Por que decidiu entrar na política? E por que desistiu justamente quando a campanha já havia consumido mais de meio milhão de reais?
São perguntas legítimas. E, neste caso, não dizem respeito apenas à trajetória pessoal da ex-BBB. Há também dinheiro público no meio da história.
Gyselle Soares Estevão nasceu em Teresina e ganhou projeção nacional em 2008, quando foi vice-campeã do Big Brother Brasil 8, perdendo a final para Rafinha por apenas 0,30 ponto percentual. Antes do reality, trabalhava como modelo e havia vivido na Europa. Posteriormente, construiu carreira artística como atriz, cantora, apresentadora e palestrante.
Em 2025, começou a anunciar publicamente sua intenção de entrar na política. Naquele momento, dizia ter sentido um “chamado” depois de realizar palestras e ações sociais pelo Piauí. Segundo ela, pessoas que participavam dessas atividades passaram a pedir que entrasse na política para defendê-las.
A justificativa ganhou contornos mais concretos posteriormente. Gyselle afirmou que queria ampliar oportunidades para pessoas das periferias e desenvolver projetos de inclusão, além de defender maior participação feminina na política. Em junho de 2026, ao anunciar a pré-candidatura a deputada federal, disse que via poucas oportunidades para quem vinha da periferia e da comunidade, como ela.
Ou seja: ela não entrou na política de uma hora para outra. Houve uma preparação anunciada, filiação ao Progressistas e uma pré-campanha construída ao longo de meses.
Mas aí vem a parte que agora chama atenção.
R$ 895 mil entraram. R$ 519 mil já saíram.
Segundo os dados divulgados no DivulgaCand, a campanha declarou R$ 895.175,67 em receitas.
Desse total, o levantamento do GP1 aponta:
R$ 500 mil do Fundo Especial de Financiamento de Campanha (FEFC);
R$ 300 mil do Fundo Partidário;
R$ 16 mil em doações de pessoas físicas;
além de outros valores registrados na prestação de contas.
Nas despesas, a conta apresentada até a renúncia chegou a R$ 519.629,04.
Portanto, não é correto dizer simplesmente que Gyselle “gastou R$ 519 mil do fundo eleitoral”. Ela declarou R$ 519 mil em despesas totais de campanha, enquanto os recursos recebidos tiveram origens diferentes.
E é justamente aí que começa a segunda parte da história.
Ela terá que devolver os R$ 519 mil?
Não automaticamente.
A renúncia da candidatura não significa, por si só, que todo dinheiro público anteriormente utilizado tenha de ser devolvido.
A legislação eleitoral exige que as despesas sejam devidamente registradas e comprovadas na prestação de contas. O fato de a candidatura ter sido posteriormente renunciada não transforma automaticamente uma despesa eleitoral regularmente realizada em gasto irregular.
O que precisa ser apurado é como o dinheiro foi utilizado.
No caso do FEFC, a regra é objetiva: aquilo que não tiver sido utilizado na campanha deve ser devolvido integralmente ao Tesouro Nacional no momento da prestação de contas. A mesma obrigação está prevista no art. 16-C, § 11, da Lei das Eleições.
Portanto, há duas situações diferentes:
Dinheiro público já utilizado em despesas eleitorais: deve ser comprovado e submetido à análise da Justiça Eleitoral.
Dinheiro público que permaneceu sem utilização: deve ser devolvido ao Tesouro, no caso do FEFC.
E ainda há uma terceira possibilidade: se a Justiça Eleitoral identificar despesa irregular, recurso de origem proibida, ausência de comprovação ou aplicação incompatível com as regras, poderá haver determinação de devolução e outras consequências na análise das contas.
Por isso, a pergunta correta não é apenas “ela vai devolver os R$ 519 mil?”.
A pergunta é:
quanto foi efetivamente gasto, em que foi gasto, qual foi a origem de cada recurso e quanto eventualmente sobrou?
E por que ela desistiu?
Aqui está um ponto que merece cuidado.
O pedido de renúncia foi apresentado por Gyselle em 21 de setembro e homologado pelo TRE-PI no dia seguinte. No documento judicial, ela declarou que a decisão era voluntária e definitiva, sem coação ou impedimento.
Mas, posteriormente, em manifestação divulgada nas redes sociais, Gyselle apresentou uma explicação pessoal para a decisão: afirmou que precisava cuidar da própria saúde e revelou enfrentar depressão, dizendo que as pressões vividas durante a trajetória política contribuíram para sua decisão.
Essa é a motivação apresentada por ela. Não cabe transformar essa declaração em outra coisa.
E há um detalhe importante: a direção do Progressistas teria sido surpreendida pela renúncia. Segundo o Dito Isto, dirigentes disseram ter tomado conhecimento da decisão por meio do TRE-PI e ainda avaliavam o que fazer em relação aos recursos recebidos pela campanha.
A candidatura acabou. A prestação de contas, não.
É justamente aí que a história fica interessante do ponto de vista eleitoral.
Gyselle desistiu. O nome Gyselle Cajuína, número 1112, saiu da disputa e sua candidatura passou a constar como renúncia/inapta no sistema eleitoral.
Mas a prestação de contas continua existindo.
E ela terá de responder, perante a Justiça Eleitoral, pelo dinheiro que entrou e pelo dinheiro que saiu.
A campanha acabou. A contabilidade, não.
E, diante de quase R$ 900 mil em receitas declaradas e mais de R$ 519 mil em despesas, a sociedade tem todo o direito de acompanhar a prestação de contas.
Não porque Gyselle seja ex-BBB.
Não porque seja artista.
Não porque tenha desistido.
Mas porque quando há dinheiro público em uma campanha eleitoral, transparência deixa de ser favor. É obrigação.
A pergunta agora é simples:
quanto foi gasto, com quem, em quê, quanto restou e quanto deverá voltar aos cofres públicos?
Essas respostas estarão na prestação de contas. E é lá que a história precisa ser conferida, documento por documento.
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