Terça, 22 de Setembro de 2026
29°

Parcialmente nublado

Teresina, PI

Política GANCORRA ELEITORAL

Sei não, mas sei lá, viu? A conta das pesquisas eleitorais não fecha tão facilmente

Quaest coloca Flávio Bolsonaro numericamente à frente de Lula no segundo turno, por 42% a 41%, mas dentro da margem de erro. A sucessão de levantamentos com pequenas diferenças entre si alimenta uma pergunta que merece ser feita sem negar a ciência: o que exatamente as pesquisas estão captando?

22/09/2026 às 00h07
Por: Douglas Ferreira
Compartilhe:
Flávio Bolsonaro e Lula da Silva em empate técnico - Foto: Reprodução
Flávio Bolsonaro e Lula da Silva em empate técnico - Foto: Reprodução

Sei não, mas sei lá, viu?

Essas pesquisas eleitorais para presidente da República estão deixando muita gente com uma pulga atrás da orelha. E, antes que apareça um espertinho me chamando de negacionista, já aviso: eu acredito em pesquisa.

Pesquisa é ferramenta importante. O que não existe é motivo para tratar qualquer pesquisa como se fosse uma escritura pública do futuro.

Existe pesquisa e pesquisa. Tem metodologia, amostra, período de campo, margem de erro, questionário, forma de abordagem e perfil dos entrevistados. Tudo isso importa.

Mas o que, de fato, causa espécie?

É a gangorra.

Num levantamento, Lula aparece numericamente à frente. Em outro, Flávio Bolsonaro encosta. Agora, na nova Quaest, divulgada nesta segunda-feira (21), Flávio aparece com 42% contra 41% de Lula em um eventual segundo turno.

Um ponto de diferença.

Numericamente, existe.

Estatisticamente, não dá para dizer que exista vantagem: a margem de erro é de dois pontos percentuais e os dois estão tecnicamente empatados. A Quaest ouviu 2.004 pessoas entre 17 e 20 de setembro, em pesquisa registrada no TSE sob o número BR-06004/2026.

E aqui começa a história interessante.

Uma hora Lula, outra hora Flávio

Na semana passada, o Datafolha mostrou Lula com 46% contra 44% de Flávio no segundo turno. Também era empate técnico. O levantamento ouviu 2.002 eleitores entre 15 e 17 de setembro, com margem de erro de dois pontos.

Agora vem a Quaest e mostra Flávio numericamente à frente.

E não é apenas uma diferença entre institutos. Dentro da própria Quaest, Flávio já havia aparecido numericamente à frente na rodada anterior, com 42% contra 40% de Lula. Agora manteve os 42%, enquanto Lula oscilou para 41%.

Calma.

Isso não significa que Flávio esteja efetivamente na frente.

Também não significa que Lula esteja.

Significa que as pesquisas recentes colocam os dois dentro de uma faixa de empate técnico, com pequenas oscilações entre institutos e levantamentos. A Reuters, ao comparar os números recentes, registrou justamente essa situação: Quaest com Flávio um ponto à frente e BTG/Nexus com Lula um ponto à frente, ambas diferenças dentro das respectivas margens de erro.

É aí que mora a pulga.

E como explicar a força de Lula?

Essa é a pergunta que merece ser feita.

Porque, se olharmos apenas para a narrativa política, há uma contradição que precisa ser compreendida.

O governo Lula enfrenta um festival de corrupcão, críticas e problemas em áreas como custo de vida, segurança pública, serviços públicos e avaliação administrativa. No Datafolha divulgado na semana passada, por exemplo, 42% avaliaram o governo como ruim ou péssimo, contra 34% que o classificaram como ótimo ou bom. A rejeição pessoal a Lula chegou a 50%, enquanto 48% disseram aprová-lo.

Então vem a pergunta inevitável:

como um presidente com avaliação negativa superior à positiva continua apresentando desempenho tão competitivo numa eleição presidencial?

Essa pergunta é legítima.

Mas há uma segunda pergunta, igualmente importante:

será que estamos atribuindo às pesquisas uma obrigação que elas não têm?

Pesquisa não mede se o governo “entregou” ou “não entregou” aquilo que determinado eleitor considera necessário. Ela mede, dentro de determinada metodologia e naquele momento, o que os entrevistados respondem.

E o eleitor pode perfeitamente considerar ruim um governo e, ainda assim, votar no presidente.

Pode rejeitar determinadas políticas e aprovar outras.

Pode não gostar do governo e rejeitar ainda mais o adversário.

Pode votar por identidade política, por preferência econômica, por medo do outro candidato ou simplesmente porque considera aquela a melhor alternativa disponível.

É justamente por isso que popularidade de governo e intenção de voto não são a mesma coisa.

O primeiro turno também conta outra história

Na própria Quaest, Lula aparece com 37% no primeiro turno e Flávio com 33%. A diferença também está dentro da margem de erro de dois pontos, segundo o levantamento.

Ou seja:

Lula aparece numericamente à frente no primeiro turno e Flávio aparece numericamente à frente no segundo.

Isso não é uma contradição matemática.

São cenários diferentes.

No primeiro turno há vários candidatos. No segundo, os votos dos demais são redistribuídos entre os dois finalistas — além dos que optam por branco, nulo ou não votar.

E aqui surge outro dado curioso.

Na mesma Quaest, Lula aparece com 41% contra Ronaldo Caiado, 41% contra Renan Santos, 39% contra Augusto Cury e 46% contra Romeu Zema. Portanto, o empate não é simplesmente “Lula contra todo mundo”. Os resultados variam conforme o adversário testado.

Então o problema é Lula, a pesquisa ou o eleitor?

Talvez nenhum dos três.

Talvez seja simplesmente uma eleição em que o eleitorado está dividido.

E isso é importante porque existe uma tentação, principalmente nas redes sociais, de transformar pesquisa em prova de alguma tese previamente escolhida.

Se o candidato preferido aparece na frente, a pesquisa é “científica”.

Se aparece atrás, é “comprada”.

Ora, aí não dá.

Quem acredita em pesquisa precisa acreditar também quando o número não agrada.

E quem desconfia de uma pesquisa precisa apresentar argumentos metodológicos concretos — amostra, questionário, ponderação, coleta, período de campo — e não apenas dizer que “não combina com o que eu vejo na rua”.

Porque a rua também engana.

Uma carreata lotada não representa necessariamente o eleitorado inteiro. Uma manifestação com pouca gente também não significa ausência de apoio.

Da mesma forma, um percentual de 42% não significa que 42% dos brasileiros estejam definitivamente decididos a votar naquele candidato.

E existe uma pergunta ainda mais incômoda

Se os números estão tão próximos, talvez o fenômeno mais interessante não seja saber quem está na frente por um ponto.

É saber por que nenhum dos dois consegue abrir uma vantagem estatisticamente clara sobre o outro.

É isso que os levantamentos recentes estão mostrando.

Datafolha: 46% a 44% para Lula.

Quaest: 42% a 41% para Flávio.

BTG/Nexus: 46% a 45% para Lula no segundo turno.

Em todos esses casos, a diferença está dentro da margem de erro.

Portanto, dizer que “Flávio já virou” seria tão precipitado quanto afirmar que “Lula está tranquilo”.

Nenhuma dessas conclusões está autorizada pelos números.

E talvez seja justamente aí que esteja a resposta para a nossa pulga atrás da orelha.

Não necessariamente há uma conspiração.

Não necessariamente há um instituto acertando e todos os outros errando.

Pode haver simplesmente um eleitorado muito mais complexo do que as manchetes de cada segunda-feira conseguem explicar.

Agora, uma coisa é certa: se um governo tão contestado consegue permanecer competitivo, isso também merece estudo.

Não necessariamente para descobrir uma fraude.

Mas para entender o eleitor.

Porque, se os números estiverem captando corretamente o sentimento nacional, existe um fenômeno político aí que não pode ser explicado apenas pela economia, pela avaliação do governo, pelas manifestações de rua ou pelas redes sociais.

E se as pesquisas estiverem errando sistematicamente a fotografia, será igualmente necessário entender onde está o erro e por que ele acontece.

No fim, a pergunta permanece.

É Lula? São os institutos? É a metodologia? É o eleitor, que ninguém consegue enxergar completamente?

Ou será que a eleição brasileira de 2026 simplesmente resolveu lembrar a todos uma velha verdade:

pesquisa é fotografia. A urna é o filme inteiro.

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
Mostrar mais comentários