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Política RELAÇÃO CHINA/BRASIL

China coloca Flávio Bolsonaro no radar e acompanha de perto o futuro das relações com o Brasil

Pequim monitora declarações e propostas do candidato do PL em áreas estratégicas como Brics, minerais críticos e inteligência artificial; comércio tende a resistir a mudanças bruscas, mas investimentos chineses podem depender do ambiente político e diplomático

21/09/2026 às 08h10
Por: Douglas Ferreira
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China monitora Flávio Bolsonaro diante de uma possível vitória do candidato do PL - Foto: Reprodução
China monitora Flávio Bolsonaro diante de uma possível vitória do candidato do PL - Foto: Reprodução

O mundo está olhando para a eleição presidencial brasileira. E a China, segunda maior economia do planeta, também acompanha com atenção o que pode acontecer em Brasília.

Não porque Pequim já considere definida uma vitória de Flávio Bolsonaro (PL), mas porque o cenário eleitoral deixou de ser tratado como uma disputa de resultado previsível. Pesquisas recentes mostram uma corrida apertada: a Genial/Quaest apontou empate de 41% entre Lula e Flávio no segundo turno, enquanto a Nexus/BTG divulgada nesta segunda-feira (21) registrou 46% para Lula e 45% para Flávio, dentro da margem de erro de dois pontos.

É nesse contexto que Pequim passou a olhar com mais atenção para o candidato do PL.

Segundo apuração da CNN Brasil com fontes em Pequim, autoridades chinesas estão acompanhando as “falas e práticas” de Flávio para avaliar como poderia funcionar a relação bilateral em um eventual governo. As mesmas fontes apontam preocupação com uma possível aproximação mais intensa de Brasília com Washington, embora avaliem Flávio como potencialmente mais pragmático e moderado que Jair Bolsonaro.

E aqui está o ponto central: o que exatamente preocupa a China?

O fantasma da aproximação com os Estados Unidos

A experiência do governo Jair Bolsonaro deixou uma memória diplomática desconfortável para Pequim.

Durante os primeiros anos daquela administração, declarações de integrantes do governo brasileiro provocaram atritos com a China. Eduardo Bolsonaro chegou a responsabilizar o país asiático pela pandemia, enquanto o então chanceler Ernesto Araújo usou o termo “comunavírus” para se referir ao coronavírus.

A relação começou a perder temperatura depois da saída de Araújo do Ministério das Relações Exteriores e da chegada de Carlos França.

Agora, segundo a CNN, Pequim trabalha com cautela. O atual embaixador chinês no Brasil, Zhu Qingqiao, mantém postura mais discreta e deverá evitar qualquer comportamento que possa ser interpretado como apoio a algum candidato.

A preocupação chinesa, portanto, não parece ser simplesmente “Flávio contra China”.

É outra coisa: até onde um eventual governo brasileiro poderia aproximar-se dos Estados Unidos sem alterar o equilíbrio estratégico construído entre Brasil e China?

Minerais críticos: aí está um dos pontos mais sensíveis

Poucos assuntos revelam melhor a disputa geopolítica atual.

Lítio, níquel, grafite, cobre, nióbio e terras raras são fundamentais para baterias, semicondutores, veículos elétricos, equipamentos militares e inteligência artificial.

E Flávio já declarou publicamente que pretende aproximar o Brasil dos Estados Unidos nesse setor.

Em março, afirmou que o Brasil poderia ser uma solução para os EUA reduzirem a dependência da China em minerais críticos. Em maio, disse que, se eleito, faria parcerias estratégicas de longo prazo com Washington nessa área e apresentou o Brasil como alternativa à China.

Não é difícil entender por que Pequim acompanha esse assunto.

A disputa por minerais críticos deixou de ser apenas econômica. Virou questão de segurança nacional e poder tecnológico.

E o Brasil possui recursos que interessam simultaneamente às duas maiores potências econômicas do mundo.

Brics: outra peça do tabuleiro

Há ainda o Brics.

O programa de governo de Flávio prevê a retomada do processo de adesão do Brasil à OCDE, mas, segundo a CNN, não menciona o Brics nem o Mercosul.

Isso não significa que um eventual governo Flávio necessariamente retiraria o Brasil do bloco.

Mas a ausência da organização no programa, somada à defesa de maior aproximação com os Estados Unidos, é suficiente para despertar atenção em Pequim.

E o momento é particularmente significativo.

Na cúpula do Brics realizada em setembro, Xi Jinping defendeu maior integração tecnológica entre os países do grupo e propôs um sistema de inteligência artificial de código aberto para utilização conjunta. A China assumirá a presidência do Brics em 2027.

Ou seja: Brics, tecnologia e minerais críticos começam a se encontrar no mesmo tabuleiro geopolítico.

Mas o comércio entre Brasil e China poderia desabar?

Segundo as fontes ouvidas pela CNN, não é essa a avaliação predominante em Pequim.

O comércio bilateral possui interesses econômicos suficientemente grandes para sobreviver a eventuais mudanças políticas.

A China é um mercado fundamental para produtos brasileiros como soja, petróleo, minério de ferro e carnes. E a relação comercial não depende exclusivamente da afinidade ideológica entre os governos.

Existe, portanto, uma diferença importante:

comércio é uma coisa; investimento estratégico é outra.

Uma eventual deterioração diplomática poderia não interromper imediatamente as exportações brasileiras para a China, mas poderia afetar decisões futuras de empresas chinesas que precisam de estabilidade política e segurança regulatória para investir bilhões de dólares.

A China já está profundamente dentro do Brasil

E esse talvez seja o dado mais importante de todos.

A relação sino-brasileira não se resume à compra de soja.

Empresas chinesas ampliaram sua presença em setores como automóveis, ferrovias, tecnologia, energia e infraestrutura.

A BYD constrói sua fábrica em Camaçari, na Bahia. A GWM prepara sua operação em Aracruz, no Espírito Santo. A CRRC está envolvida em projetos ferroviários em São Paulo. A ByteDance, dona do TikTok, prepara um megaprojeto de data center no Ceará. Empresas como DiDi e Meituan também disputam espaço no mercado brasileiro.

Isso cria uma relação de interdependência.

Não é simples para Brasília romper com Pequim. E também não é simples para Pequim ignorar Brasília.

E por que Flávio passou a ser tratado como possibilidade concreta?

Aqui é preciso separar percepção de previsão.

Não existe consenso internacional de que Flávio será presidente. O que existe é uma combinação de pesquisas apertadas, mercados de previsão e movimentação política que tornou seu cenário eleitoral relevante.

A Nexus/BTG divulgada nesta segunda-feira mostra Lula com 46% e Flávio com 45% no segundo turno, dentro da margem de erro. A Quaest anterior registrou 41% para cada um.

Isso explica por que governos estrangeiros começam a estudar cenários.

E não apenas a China.

Quando uma eleição passa a apresentar possibilidade concreta de alternância de poder, governos, investidores e empresas precisam fazer aquilo que governos e empresas normalmente fazem: planejar o dia seguinte.

Pequim parece estar fazendo exatamente isso.

Não significa que a China esteja torcendo por Lula ou por Flávio.

Significa que ela quer saber quem poderá ocupar o Palácio do Planalto e, principalmente, quais serão as regras do jogo caso haja mudança de governo.

E talvez essa seja a pergunta mais interessante dessa eleição:

Se Flávio Bolsonaro chegar ao Planalto, o Brasil conseguirá manter simultaneamente suas relações estratégicas com China e Estados Unidos, ou será pressionado a escolher lados em uma disputa geopolítica que está ficando cada vez mais difícil de ignorar?

Essa resposta não está em Pequim, Washington ou Brasília.

Ainda está nas urnas.

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