
De acordo com Rodolfo Borges, em matéria publicada em O Antagonista, pesquisas indicam prejuízo eleitoral para Flávio Bolsonaro, mas o presidente pode acabar sentindo os impactos da sobretaxa na eleição.
As pesquisas de opinião indicam que a percepção majoritária é de que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) tem mais a perder eleitoralmente do que o presidente Lula (foto) com o novo tarifaço do governo Donald Trump, que começa a valer na quarta-feira, dia 22. O cientista político Leonardo Barreto alerta, em seu artigo desta semana na revista Crusoé, contudo, para o fato de que o petista pode ser prejudicado pelos efeitos práticos da sobretaxa.
"Quando os resultados da guerra comercial se mostrarem, aí é o momento de fazer as pesquisas de opinião", diz o cientista político, prevendo que Lula será cobrado por estar "pilotando o avião".Talvez o impacto econômico da medida, como o desemprego ou o aumento de preços decorrente da tarifa extra, não seja ligado diretamente pela população ao tarifaço. Ainda assim, é de se esperar que o eleitor incomodado desconte sua frustração no governo de turno ao votar. É o que costuma ocorrer em toda eleição.
Isso indicaria, portanto, um erro de cálculo do governo Lula ao protelar as negociações com o governo americano, sob o conforto da impressão de que o presidente não sairia machucado. A não ser que o Palácio do Planalto tenha uma noção clara do momento em que os prejuízos impostos pelo tarifaço serão sentidos. A Confederação Nacional da Indústria (CNI) estima um impacto de cerca de 14,9 bilhões de dólares nas exportações para os Estados Unidos, o equivalente a aproximadamente 25% das vendas brasileiras ao mercado americano. Estudo da FIA Business School projeta uma redução de até 0,6 ponto percentual no crescimento do PIB em 2026, o que equivaleria a uma perda de até 76 bilhões de reais em atividade econômica, no cenário mais pessimista.
Estima-se, também, um impacto de até 38 bilhões de reais no consumo das famílias, o que se refletiria em menor produção, investimentos e emprego. O tarifaço ainda poderia contribuir para pressionar a inflação, já afetada pela crise do petróleo e pelos efeitos do El Niño. Pode ser que o tarifaço não sobreviva como pauta eleitoral até outubro, até porque, no momento, é a oposição a Lula que se desgasta com ele. Mas seus efeitos podem fazer diferença na eleição, e o presidente vai depender da famigerada narrativa para se livrar da culpa pela situação da economia.
Enquanto o impacto do tarifaço não chega, quem tende a se desgastar é Flávio, e será preciso medir o quanto sua pré-candidatura, já debilitada por tantas crises, será afetada por mais esse episódio. No ano passado, Lula surfou na ameaça de um tarifaço de 50%, porque a família Bolsonaro se prestou a se apresentar como avalista da tarifa extra, recuperando parte de sua popularidade.
Agora, o presidente também colhe os frutos de 200 bilhões de reais em políticas eleitoreiras e dos problemas daquele que se apresenta como a melhor alternativa a ele. A eleição de outubro dirá se o número de pessoas que o petista conseguiu convencer nos últimos quatro anos será suficiente para permanecer no poder por mais um mandato.
Eis a capa da revista Crusoé, pessoal. Crusoé: Selo Nunes Marques de Qualidade. O TSE alimenta a tradicional desconfiança em relação às pesquisas eleitorais. E mais: a última cartada e os fantasmas que assombram os pré-candidatos. Cerca de vinte empresas realizam atualmente pesquisas de intenção de voto para presidente no Brasil. Quando se consideram também as disputas estaduais, o número sobe para 35. Trata-se de um mercado maduro, em que companhias disputam clientes e fazem parcerias com veículos de imprensa, oferecendo diferentes metodologias e análises.
Mas o Brasil sempre consegue estragar tudo. Ninguém é capaz de dar um basta nesse "mercado lucrativo"?
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