
Existe algo profundamente contraditório na lógica política do governo Lula quando o assunto é prioridade nacional. De um lado, o Palácio do Planalto discute mecanismos para indenizar pessoas flagradas com celulares roubados ou estimular a devolução voluntária de aparelhos oriundos do crime, medida que já vem sendo chamada por críticos de “bolsa receptação”. Do outro, o mesmo governo parece tratar com superficialidade os impactos econômicos da PEC que reduz a jornada de trabalho e praticamente sepulta a escala 6x1 no Brasil.
É justamente nesse ponto que surge uma observação relevante feita por Márcio França, pré-candidato ao Senado por São Paulo e aliado histórico de Lula. França se declarou favorável à redução da jornada, mas levantou um alerta que parte da esquerda parece ignorar completamente: quem vai proteger o pequeno empreendedor?
A fala do ex-governador paulista escancara um debate que o governo evita aprofundar. Micro e pequenas empresas representam mais de 99% dos CNPJs brasileiros. São padarias, mercadinhos, oficinas, pequenos restaurantes, salões de beleza, lanchonetes, lojas de bairro e trabalhadores MEI que sustentam milhões de famílias. São justamente esses negócios que mais sofrerão impacto imediato com aumento de custos trabalhistas, necessidade de novas contratações e dificuldade para manter funcionamento com menos horas disponíveis.
Márcio França compreendeu algo básico da economia real. O pequeno empreendedor não funciona como uma grande multinacional. Muitas vezes ele é patrão e empregado ao mesmo tempo. Trabalha junto da família, abre e fecha o negócio, atende cliente, limpa o estabelecimento, controla estoque e ainda luta para sobreviver diante da carga tributária sufocante.
Ao contrário do discurso ideológico romantizado, a mudança brusca da jornada pode gerar efeito reverso. Em vez de ampliar qualidade de vida, pode provocar:
- redução de vagas;
- informalidade;
- demissões;
- fechamento de empresas;
- queda de renda;
- aumento de preços ao consumidor.
França defendeu proteção específica para esse setor, incluindo ampliação do teto do MEI, regras de transição e mecanismos tributários que evitem a quebra dos pequenos negócios. Trata-se de uma visão pragmática e menos ideológica.
A crítica central que emerge daí é inevitável. Por que o governo demonstra tanta sensibilidade para temas ligados ao crime e tão pouca preocupação imediata com quem produz emprego no país?
A percepção de parte da sociedade é de que Lula frequentemente direciona seu discurso para proteger ou relativizar questões envolvendo criminalidade, enquanto o empreendedor aparece apenas como fonte arrecadatória do Estado. Isso ajuda a explicar o crescente distanciamento entre setores produtivos e o governo federal.
Outro ponto importante é que a defesa da redução da jornada não é necessariamente absurda. O próprio Márcio França reconhece que o mundo caminha para modelos menos exaustivos de trabalho. A questão central não é o objetivo final, mas a velocidade, a transição e o custo social da mudança.
Sem planejamento, a PEC pode atingir justamente quem mais emprega no Brasil.
E há ainda um elemento político evidente. Enquanto o governo tenta vender o fim da escala 6x1 como conquista histórica, cresce nos bastidores do Congresso o temor de que muitos parlamentares estejam mais preocupados com dividendos eleitorais do que com os impactos econômicos concretos da medida.
No fim das contas, permanece uma pergunta desconfortável. Por que o governo parece mais mobilizado em discutir políticas relacionadas à receptação de produtos roubados do que em construir um plano robusto de proteção ao pequeno empreendedor brasileiro?
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