
A política é cheia de apostas arriscadas. Algumas lembram jogo de xadrez. Outras parecem roleta russa institucional. E a decisão de Lula de insistir novamente no nome de Jorge Messias para o Supremo Tribunal Federal soa exatamente assim. Depois de uma derrota histórica no Senado, o presidente agora sinaliza a aliados que pretende reenviar o nome do advogado-geral da União para a vaga no STF. E aí surge a pergunta que ecoa nos bastidores de Brasília: o que exatamente Lula aprendeu com a primeira derrota?
Bismarck, o famoso “Chanceler de Ferro”, dizia que existem três tipos de pessoas. Os inteligentes aprendem com a experiência alheia. Os medíocres aprendem com a própria experiência. E os idiotas nunca aprendem. A frase atravessou séculos porque continua atual como poucas. No caso de Lula, a insistência em Jorge Messias faz muita gente se perguntar se o presidente não percebeu o tamanho do desgaste político sofrido na primeira votação ou se resolveu mesmo pagar para ver.
A derrota de Messias não foi qualquer tropeço. Foi um terremoto político. Pela primeira vez em 132 anos um indicado ao STF foi rejeitado pelo plenário do Senado. E nos bastidores a derrota foi atribuída diretamente ao presidente da Casa, Davi Alcolumbre, que teria trabalhado voto por voto para barrar a indicação. Senadores relatam que o senador amapaense chegou a dizer que “derrotaria esse cara”. E derrotou.
Lula até tentou cozinhar a indicação em banho-maria para reduzir resistências. Demorou meses para formalizar o envio do nome ao Senado, numa estratégia para esfriar rejeições e construir apoio político. Mas o plano afundou como barco furado em tempestade. No dia 29 de abril, Messias foi rejeitado por 42 votos contra 34.
Agora, o presidente parece disposto a voltar para a mesma guerra com as mesmas armas e contra os mesmos adversários. Segundo aliados, Lula considera que a derrota de Jorge Messias representou uma afronta à prerrogativa constitucional do presidente da República de indicar ministros do STF. Por isso, não quer recuar.
Só que política também é ambiente, temperatura e timing. E segundo a oposição, hoje simplesmente “não há clima” para uma nova tentativa. Sem articulação sólida, Jorge Messias corre o risco de entrar para a história como o primeiro nome rejeitado duas vezes para o Supremo. E Lula, inevitavelmente, também carregaria o peso político de uma dupla derrota.
Nos bastidores, aliados do governo chegaram a defender outro nome para evitar novo desgaste. Mas Lula parece determinado a insistir. E isso reacendeu a crise entre o Palácio do Planalto e a cúpula do Senado, especialmente com Davi Alcolumbre, que defendia Rodrigo Pacheco para a vaga no Supremo.
O clima azedou ainda mais recentemente durante a posse de Nunes Marques na presidência do TSE. Observadores políticos notaram que Alcolumbre evitou aplaudir Jorge Messias durante a cerimônia. Em Brasília, gesto pequeno muitas vezes fala mais alto que discurso em plenário. Política, aliás, é igual jogo de pôquer. Tem hora em que o silêncio denuncia mais do que a fala.
Agora Lula promete entrar pessoalmente nas negociações para tentar aprovar Messias numa segunda rodada. Mas o risco é evidente. Porque insistir no mesmo nome depois de uma derrota histórica pode ser visto como demonstração de força. Ou como teimosia política em estado bruto.
E em Brasília, quando o governo erra o cálculo político, a conta costuma chegar com juros, correção monetária e humilhação pública.
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