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Zé Alfaiate, os traficantes negros e a verdade histórica que o Brasil evita discutir

A participação de negros livres e comerciantes africanos no sistema escravista desafia narrativas simplistas sobre a escravidão e reacende o debate sobre exploração humana ontem e hoje

11/05/2026 às 04h00 Atualizada em 11/05/2026 às 11h41
Por: Douglas Ferreira
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Zé Alfaiate, o negro e maior traficante de escravos no Brasil colonial e imperial - Foto: Reprodução
Zé Alfaiate, o negro e maior traficante de escravos no Brasil colonial e imperial - Foto: Reprodução

A escravidão é provavelmente uma das maiores chagas morais da história humana. Durante séculos, milhões de pessoas foram arrancadas de suas terras, separadas de suas famílias e transformadas em mercadoria. No Brasil, o tema quase sempre aparece associado — corretamente — ao protagonismo das elites coloniais europeias e dos grandes senhores brancos que enriqueceram com o sangue e o sofrimento humano. Mas existe uma parte dessa história que frequentemente provoca desconforto, silêncio e até negação ideológica: a participação de negros livres, comerciantes africanos e intermediários negros no próprio sistema escravista.

Entre os personagens citados em registros históricos aparece Zé Alfaiate, apontado como um homem negro envolvido no comércio de escravizados no Brasil. Sua trajetória desmonta narrativas simplistas e obriga a sociedade a encarar uma realidade mais complexa e incômoda. Sim, existiram negros que comercializaram negros. Existiram africanos que capturavam africanos para vender a traficantes europeus. Existiram intermediários negros que enriqueceram participando diretamente da engrenagem do tráfico negreiro.

Negar esse fato histórico não fortalece a luta contra o racismo. Pelo contrário. Esconder capítulos desconfortáveis apenas empobrece a compreensão sobre como funcionava a máquina da escravidão. O tráfico atlântico de seres humanos não foi sustentado apenas por europeus armados atravessando oceanos. Em diversas regiões da África, reinos, mercadores locais, chefes tribais e grupos rivais participaram da captura e venda de prisioneiros de guerra e civis para comerciantes europeus, que então os transportavam para as Américas.

Isso, evidentemente, não absolve as potências coloniais europeias, que transformaram a escravidão em um gigantesco sistema econômico global. Foram os impérios europeus que industrializaram o tráfico humano em escala brutal. Mas a história real é mais complexa do que slogans políticos ou discursos militantes muitas vezes permitem admitir.

A escravidão, aliás, nunca foi exclusividade de um único povo, raça ou continente. Ao longo da história, praticamente todas as grandes civilizações escravizaram alguém. Africanos escravizaram africanos. Europeus escravizaram europeus e africanos. Povos árabes escravizaram milhões de africanos e europeus durante séculos. Povos indígenas também praticaram formas de escravidão e aprisionamento. Judeus foram escravizados. Cristãos foram escravizados. Muçulmanos foram escravizados. Homens brancos, negros, indígenas e asiáticos já estiveram dos dois lados da corrente em diferentes momentos da história humana.

Isso não relativiza o horror da escravidão racial praticada nas Américas. O sistema escravista brasileiro teve características específicas, profundamente violentas e estruturadas em critérios raciais. Mas compreender isso não exige apagar outras verdades históricas. Exige maturidade intelectual para aceitar que a crueldade humana não possui monopólio racial.

O próprio debate sobre Zumbi dos Palmares continua cercado de disputas ideológicas e interpretações divergentes entre historiadores. Existem estudos que apontam que Palmares mantinha estruturas internas de hierarquia e punição, enquanto outros pesquisadores contestam simplificações feitas sobre o tema. O problema começa quando a história deixa de ser investigação e passa a funcionar como religião política, onde personagens são transformados apenas em santos ou demônios conforme a conveniência ideológica.

O caso de Zé Alfaiate serve justamente para lembrar que a escravidão era uma engrenagem econômica capaz de corromper indivíduos de diferentes origens. O dinheiro da escravidão seduzia reis, comerciantes, militares, autoridades religiosas e intermediários locais. A cor da pele nunca foi vacina automática contra a ambição, a violência ou a exploração humana.

E talvez a lição mais perturbadora seja outra: a escravidão não desapareceu completamente. Ela apenas mudou de forma. Neste exato momento, milhões de pessoas no mundo seguem submetidas ao tráfico humano, prostituição forçada, trabalho análogo à escravidão e exploração criminosa. Mulheres, homens e crianças continuam sendo vendidos, transportados e explorados por organizações que lucram com a miséria humana.

No Brasil atual, operações do Ministério do Trabalho e da Polícia Federal seguem libertando trabalhadores encontrados em condições análogas à escravidão nos mais diversos estados do país. Homens simples, muitas vezes miscigenados, negros, pardos ou brancos pobres, são resgatados vivendo em barracos improvisados, sem água potável, alimentação adequada ou salário digno.

Em regiões da Amazônia, denúncias envolvendo tráfico sexual infantil, inclusive na Ilha de Marajó, revelam uma realidade ainda mais brutal e perturbadora: crianças vulneráveis exploradas por redes criminosas ligadas à prostituição e ao abuso sexual. É a escravidão contemporânea sobrevivendo diante dos olhos de uma sociedade que muitas vezes prefere fingir que não vê.

Os “Zé Alfaiates” do século XXI ainda existem. Estão espalhados pelo mundo, operando redes de tráfico humano, exploração sexual e trabalho escravo contemporâneo. E enfrentá-los exige compromisso com a verdade histórica — inclusive quando ela incomoda narrativas políticas de direita ou de esquerda.

Porque nenhuma sociedade combate verdadeiramente uma tragédia escondendo partes da própria história.

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A NOTÍCIA E O FATO
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Sobre Douglas Ferreira é multimídia. Além de jornalista, é bacharel em Direito. Foi repórter da TV Clube, afiliada da Rede Globo, por 10 anos e, em Caxias, no Maranhão, apresentou o programa “Fala Caxias”. Fundou e dirigiu por seis anos a Folha do Cocais. Foi secretário de Comunicação da Prefeitura de Caxias e retornou a Teresina como âncora da TV Meio Norte. Por 20 anos, reportou e apresentou na TV Antena 10, afiliada da Record. Também foi assessor de imprensa do Tribunal de Justiça do Piauí e passou por rádios e pelos maiores portais do Estado. Sua vida é o jornalismo. No Sistema Move de Comunicação, foi editor do Portal Move Notícias e apresentador do Business Cast, do canal movetvweb no YouTube. Agora, está à frente do Gazeta Hora1.
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