
A captura de Nicolás Maduro desencadeou uma reação previsível e automática em setores da esquerda internacional, o discurso raso de sempre, segundo o qual qualquer ação dos Estados Unidos se resume ao petróleo. A narrativa é simples, confortável e conveniente. Reduz um dos regimes mais brutais da América Latina a uma equação econômica e ignora, deliberadamente, o sofrimento humano provocado por uma ditadura que transformou a Venezuela em um cemitério de direitos, liberdades e vidas.
É inegável que o petróleo venezuelano desperta interesse estratégico. Com mais de 17% das reservas mundiais, superando inclusive a Arábia Saudita, o subsolo do país sempre foi um ativo cobiçado. O próprio Donald Trump jamais escondeu o pragmatismo americano ao afirmar, de forma crua, que pretende “tomar de volta” o que foi nacionalizado durante o regime de Hugo Chávez. Nesse ponto, Washington é coerente com sua tradição histórica, interesses nacionais vêm antes de discursos ideológicos.
Mas limitar toda a ação americana à questão energética é, no mínimo, desonesto. É fechar os olhos para uma realidade que grita. Onde entra, nessa análise simplista, a carnificina promovida por Maduro? Onde ficam as prisões arbitrárias, as torturas sistemáticas, as execuções extrajudiciais e a perseguição política institucionalizada? Onde se encaixa o fato de um país riquíssimo em recursos naturais ter empurrado sua população para a fome, a miséria e o exílio em massa?
A Venezuela de Maduro não é apenas um Estado falido, é um Estado opressor. Um país onde o salário mínimo gira em torno de três dólares, onde a sobrevivência virou resistência diária e onde a liberdade se transformou em privilégio para poucos. O “país do petróleo” tornou-se, paradoxalmente, o país da fome, do medo e do silêncio imposto à força.
Essa realidade, ignorada por boa parte da grande mídia internacional, foi escancarada nas últimas horas por um vídeo que viralizou nas redes sociais. Nele, o comunicador e influenciador venezuelano Jesus Alvarez comemora a prisão de Maduro e dá voz ao sentimento do venezuelano comum, aquele que passou anos sobrevivendo à escassez, à repressão e à humilhação. Seus dados não são slogans, são números frios de uma tragédia humanitária deliberadamente omitida.
Segundo Alvarez, "o regime de Maduro acumula mais de 36 mil vítimas de tortura, 18 mil e 300 presos políticos, cerca de 10 mil execuções extrajudiciais, 468 assassinatos durante protestos, mais de 8 mil violações graves de direitos humanos documentadas e aproximadamente 8 milhões de venezuelanos forçados ao exílio".
Soma-se a isso "o fechamento ou censura de cerca de 400 veículos de comunicação e um dado devastador, 90% da população vivendo hoje na pobreza, sendo metade em pobreza extrema".
Esses números desmontam, por si só, a tese confortável de que tudo se resume ao petróleo. Negar o caráter genocida da ditadura de Maduro é negar a realidade. É relativizar a dor de um povo inteiro em nome de uma narrativa ideológica que já não se sustenta nem diante dos fatos mais elementares.
A pergunta que fica não é se os Estados Unidos têm interesses econômicos na Venezuela, isso é óbvio e jamais foi segredo. A pergunta que precisa ser feita é por que tantos insistem em ignorar, minimizar ou até justificar uma tirania sanguinária que destruiu um país inteiro. Reduzir tudo ao petróleo não é análise política, é cumplicidade moral. Ou seria compactuar com a imoralidade?
vf
TENSÃO INTE Trump endurece o tom e ameaça: “O Irã deixará de existir” se romper cessar-fogo novamente
ESTREITO DE ORMUZ Novos ataques dos EUA elevam risco de guerra aberta no Oriente Médio
DESASTRE NATURAL 1430 mortos: Venezuela vive uma das maiores tragédias sísmicas de sua história
TERREMOTO VENEZUELA Venezuela vive corrida contra o tempo enquanto número de mortos chega a 920 e mais de 54 mil seguem desaparecidos
ITAMARATY Terremoto na Venezuela: tragédia deixa centenas de vítimas e atinge brasileiros
UMA ONDA AZUL América Latina desavermelha? Keiko Fujimori vence no Peru e amplia avanço da direita na região Mín. 23° Máx. 32°