
A queda sucessiva dos governos de esquerda na América Latina não é obra do acaso, tampouco resultado de conspirações externas, como gostam de alegar seus porta-vozes. Trata-se de um efeito dominó político, acionado por um fator recorrente, o fracasso da política econômica progressista, incapaz de entregar crescimento sustentado, controle inflacionário, responsabilidade fiscal e melhoria real da qualidade de vida. A conta chegou, e chegou pesada, nas urnas.
Durante anos, a esquerda latino-americana venceu eleições com discursos carregados de promessas sociais, justiça distributiva e retórica anti-mercado. No poder, porém, entregou inflação, descontrole fiscal, aparelhamento do Estado e estagnação econômica. O eleitor, que pode até tolerar retórica ideológica, não perdoa o preço do alimento, o desemprego e a insegurança. A paciência acabou.
O caso mais emblemático é o da Argentina. A eleição de Javier Milei não foi apenas uma alternância de poder, mas um grito de exaustão social contra décadas de peronismo e progressismo fracassado. Milei não venceu apesar de seu discurso radical, venceu por causa dele, ao oferecer uma ruptura clara com um modelo econômico que levou o país à beira do colapso permanente.
No Equador, a ascensão de Daniel Noboa, ainda que moderada e pragmática, também simboliza o afastamento do receituário progressista tradicional. O eleitor equatoriano não buscou um messias ideológico, buscou gestão, estabilidade e previsibilidade, três conceitos historicamente maltratados por governos de esquerda na região.
O Paraguai, com a eleição de Santiago Peña, reforçou uma característica regional, onde a direita não precisou nem romper com o sistema, apenas manter uma linha pró-mercado minimamente funcional para garantir apoio popular. Quando o básico funciona, o radicalismo perde espaço.
Na América Central, a vitória de Nasry Asfura, em Honduras, mesmo em um pleito marcado por disputas apertadas e questionamentos, evidencia outro elemento central dessa virada, o desgaste das esquerdas no poder, associadas à insegurança, à fragilidade institucional e à incapacidade de resposta econômica. O eleitor hondurenho optou pelo conhecido, não pelo ideológico.
O que se observa, portanto, não é uma guinada homogênea rumo a um modelo único de direita, mas um abandono progressivo do progressismo. A América Latina, que já foi celebrada como “vermelha”, hoje desbota ideologicamente, substituindo slogans por pragmatismo e utopias por planilhas. A direita cresce menos por virtude própria e mais pelo fracasso reiterado do adversário.
A esquerda, por sua vez, insiste em repetir o mesmo roteiro. Perde eleições, acusa o eleitor, o mercado, a mídia, o imperialismo e até a democracia. Nunca faz a autópsia honesta de seus próprios governos. Enquanto isso, a realidade insiste, não há política social sustentável sem economia saudável, não há Estado forte sem contas equilibradas, e não há hegemonia ideológica que sobreviva à prateleira vazia.
A virada latino-americana não é definitiva, mas é didática. O eleitor não mudou de valores, mudou de paciência. A direita e a centro-direita voltam ao poder não por nostalgia autoritária, mas porque a esquerda falhou onde prometeu salvar. No fim das contas, a ideologia perde sempre para o custo de vida. E, na América Latina, essa lição está sendo aprendida voto a voto.
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