
Está cada vez mais evidente que, se depender do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e da diplomacia brasileira, a Venezuela seguirá sob um regime autoritário, comandado com mão de ferro pelo ditador Nicolás Maduro. A decisão do governo Lula de não assinar a carta conjunta que pede o restabelecimento da democracia e a libertação de presos políticos escancara uma escolha política deliberada, a da omissão cúmplice.
O documento foi assinado por países como Argentina, Paraguai, Panamá, Bolívia, Equador e Peru, que reconheceram formalmente a gravidade da crise humanitária, social e institucional venezuelana. O Brasil, no entanto, preferiu se alinhar ao silêncio, ao lado de Chile e Uruguai, ignorando denúncias amplamente documentadas de perseguição política, tortura, prisões arbitrárias e supressão de liberdades civis.
A pergunta que se impõe é direta, por que Lula tem tanta dificuldade em reconhecer uma ditadura quando ela se diz “de esquerda”? Por que a palavra “autoritarismo” parece desaparecer do vocabulário diplomático brasileiro quando o regime em questão é aliado ideológico? A resposta parece menos diplomática e mais ideológica.
O governo brasileiro sustenta que qualquer crítica ao regime chavista deveria vir acompanhada de menções a sanções internacionais e à presença militar dos Estados Unidos na região. Trata-se de um argumento clássico de desvio retórico, que relativiza violações de direitos humanos ao tentar diluir responsabilidades. Enquanto isso, o povo venezuelano segue pagando a conta, com fome, êxodo em massa e repressão estatal.
Durante a cúpula do Mercosul, a falta de consenso ficou explícita. A situação da Venezuela sequer entrou na declaração final do bloco. Presidentes como Javier Milei defenderam maior pressão internacional sobre Maduro, enquanto Lula classificou qualquer hipótese de intervenção como “uma catástrofe”, apostando novamente em uma saída diplomática abstrata, que nunca chega.
O problema é que essa “saída diplomática” já dura anos e só serviu para fortalecer o regime. Maduro permanece no poder, a oposição é esmagada, eleições são questionadas e milhares de venezuelanos continuam presos por motivos políticos. A diplomacia do diálogo infinito, sem cobrança efetiva, virou salvo-conduto para o autoritarismo.
Ao se recusar a assinar um simples documento político, sem força coercitiva, o Brasil envia ao mundo um recado inequívoco, não considera prioritária a defesa da democracia quando ela entra em conflito com alianças ideológicas. É uma escolha que mancha a tradição diplomática brasileira e enfraquece qualquer discurso futuro em defesa dos direitos humanos.
No fim, a omissão do governo Lula não protege a paz regional, não ajuda a Venezuela e não salva vidas. Apenas normaliza a ditadura, legitima o opressor e abandona as vítimas. Maduro governa pela força, mas também se sustenta pelo silêncio cúmplice de aliados. E, neste episódio, o Brasil escolheu calar.
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