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Saiba quem é o advogado preso que atuava como “pombo-correio” do Comando Vermelho

Preso após meses foragido, advogado é acusado de usar a profissão para levar ordens de dentro do presídio a integrantes da facção criminosa, escancarando a infiltração do crime organizado na advocacia

17/12/2025 às 05h06
Por: Douglas Ferreira
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Momento da prisão de Victor de Alencar Gomes Magalhães - Foto: Reprodução
Momento da prisão de Victor de Alencar Gomes Magalhães - Foto: Reprodução

Há tempos, a relação entre advogados criminalistas e o crime organizado deixou de ser apenas profissional. Aquela linha tênue, quase invisível, que separa o exercício legítimo da advocacia da cumplicidade criminosa foi atravessada, pisoteada e, em muitos casos, simplesmente ignorada. O que se vê hoje não é defesa técnica, é conivência ativa. Não é exceção, é padrão em expansão.

Convém deixar claro, para evitar o discurso fácil: não é crime advogar para criminosos. Todo acusado tem direito à defesa, e não existe Justiça sem advogado. O problema começa quando o causídico deixa a Constituição na gaveta e passa a operar como office boy de facção, pombo-correio do tráfico ou gerente de comunicação do cárcere. Aí não é advocacia, é crime com carteira da OAB, ainda que suspensa.

O caso do advogado Victor de Alencar Gomes Magalhães, preso no interior do Ceará após quase sete meses foragido, é didático. Segundo a Polícia Civil, ele se valia da profissão para transportar bilhetes de um chefe do Comando Vermelho, atualmente preso, para comparsas em liberdade. Em outras palavras: enquanto o Estado acredita que isolou o líder criminoso, o advogado garantia que as ordens continuassem saindo da cela como se fosse home office do crime.

Victor foi localizado em uma quadra de beach tennis, porque até o submundo do crime precisa manter o shape, e ainda tentou despistar a polícia usando o nome do irmão e resistindo à apreensão do celular. Não funcionou. Foi preso. E detalhe importante: já estava com a situação suspensa na OAB, respondendo a processo disciplinar. Mesmo assim, continuava atuando como elo entre o presídio e a rua. Um telefone, um advogado e uma facção. Receita conhecida.

E que ninguém se iluda: não se trata de um caso isolado. No Ceará, no Piauí, no Rio, em São Paulo, a lista só cresce. Quem não lembra da companheira de preso que entrou em unidade prisional se passando por advogada, usando carteira “quente” emprestada por uma profissional regularmente inscrita? Quem não recorda advogados flagrados com celulares, chips, bilhetes e recados que, em muitos casos, autorizavam execuções?

Isso não é desvio pontual. É sintoma de infiltração. O crime organizado não quer apenas fuzil, droga e território. Quer institucionalidade. Quer verniz jurídico. Quer CPF, diploma e discurso técnico para blindar seus interesses. E tem conseguido.

No Piauí, quantos advogados já foram presos por envolvimento direto com facções? Quantos mais nunca foram? A pergunta é incômoda, mas necessária. O mais preocupante é que esse mesmo crime organizado financia campanhas eleitorais, elege vereadores, apoia deputados e, não raro, encontra representantes com curso superior, discurso bonito e OAB no bolso.

E o projeto não para aí. As facções já entenderam que poder de verdade não está só na rua. Está nos concursos. Delegado, promotor, defensor público, juiz. É uma questão de tempo, e investimento, para que esse projeto avance aos tribunais superiores. Quem acha exagero não está acompanhando a realidade.

A prisão de Victor Magalhães, investigado pela DRACO Norte como integrante do Comando Vermelho, e a de sua colega Monika Fernandes Portela, suspeita de atuar no mesmo esquema, expõem uma engrenagem bem maior. Os bilhetes partiam de Francisco Clever Carneiro Freitas, o “Careca”, líder da facção no Norte do Ceará, preso em Itaitinga, mas longe de estar isolado. Preso fisicamente, solto operacionalmente.

A OAB do Ceará afirmou, corretamente, que acompanha o caso para garantir prerrogativas e o direito à ampla defesa. Isso é institucional e necessário. Mas a sociedade espera mais do que notas protocolares. Espera rigor, depuração interna e expulsão sem contemporização de quem transforma a advocacia em extensão do crime.

O alerta está dado. Ainda há tempo. Mas o relógio corre contra as instituições. Quando o advogado vira mensageiro do tráfico, quando o Direito passa a servir ao crime e quando o Estado perde o controle do próprio sistema de Justiça, o problema deixa de ser jurídico. Passa a ser civilizatório.

E aí, não haverá habeas corpus que resolva.

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