Segunda, 27 de Julho de 2026
32°

Tempo limpo

Teresina, PI

Nordeste POBREZA IDEOLÓGICA

Maranhão: de potência esquecida ao retrato do paradoxo brasileiro

O Estado tem o menor PIB per capita do país, quase metade da população vive abaixo da linha da pobreza e, ainda assim, passou a cobrar o maior ICMS do Brasil, de 23%

27/07/2026 às 08h52
Por: Douglas Ferreira
Compartilhe:
O Maranhão e suas contradições - Foto: Reprodução/Virou Notícia Maranhão
O Maranhão e suas contradições - Foto: Reprodução/Virou Notícia Maranhão

O Maranhão reúne algumas das maiores riquezas naturais do Brasil. Possui um dos maiores complexos portuários da América Latina, reservas minerais estratégicas, potencial agrícola crescente, localização privilegiada, forte vocação turística, além de um patrimônio histórico e cultural reconhecido internacionalmente. Ainda assim, amarga há décadas os piores indicadores sociais do país.

A contradição chama atenção de economistas, cientistas políticos e especialistas em desenvolvimento regional: como um estado tão rico em potencial conseguiu permanecer entre os mais pobres da Federação?

Os números ajudam a explicar parte desse paradoxo.

O Maranhão segue ocupando a última colocação no ranking nacional de PIB per capita, com renda média anual em torno de R$ 22 mil por habitante. Cerca de 46% da população vive abaixo da linha da pobreza, aproximadamente 1,5 milhão de pessoas sobrevivem com renda extremamente baixa, e três das quatro cidades mais pobres do Brasil estão localizadas no Estado.

Ao mesmo tempo, o governo estadual passou a cobrar a maior alíquota modal de ICMS do país, de 23%, superior à de estados economicamente muito mais desenvolvidos.

Esse cenário reacendeu uma discussão inevitável: por que justamente a população mais pobre do Brasil suporta hoje a maior carga tributária sobre o consumo?

Especialistas explicam que economias frágeis costumam depender mais da arrecadação do ICMS para financiar a máquina pública. O problema é que esse imposto é considerado regressivo: quem ganha menos acaba comprometendo uma parcela proporcionalmente maior da renda com alimentos, energia, combustíveis, medicamentos e transporte.

Forma-se, assim, um ciclo difícil de romper.

Baixa atividade econômica reduz a arrecadação natural. Para compensar, aumenta-se a tributação. Produtos ficam mais caros, o consumo diminui, a economia perde dinamismo, o emprego formal cresce menos e a dependência dos programas sociais aumenta.

O Maranhão permanece preso nesse círculo vicioso.

Outro aspecto que alimenta o debate é o desempenho econômico das últimas duas décadas.

Embora o PIB estadual tenha crescido cerca de 95,8% entre 2002 e 2022, esse avanço não se converteu em melhora proporcional da renda da população. O crescimento ocorreu de forma concentrada em determinados setores, sem produzir distribuição mais ampla de riqueza ou fortalecimento consistente do mercado interno.

Esse contraste leva a uma reflexão mais ampla sobre o modelo de desenvolvimento adotado.

Como explicar que um estado com ferro, alumínio, gás, agronegócio em expansão, litoral turístico, patrimônio histórico e posição logística estratégica continue liderando indicadores de pobreza?

A resposta envolve múltiplos fatores: baixa industrialização, deficiência histórica em infraestrutura, dificuldades educacionais, desigualdade social persistente, limitações na geração de empregos formais, ambiente de negócios ainda pouco competitivo e sucessivas escolhas de políticas públicas ao longo de diferentes governos.

Também entram nesse debate as decisões tributárias.

Enquanto cresce a necessidade de estimular investimentos privados, geração de empregos e aumento da competitividade, o aumento da carga tributária sobre consumo acaba sendo alvo de críticas por parte do setor produtivo, juristas e economistas, que alertam para o risco de reduzir ainda mais o poder de compra da população.

No campo político, outro dado desperta atenção.

Mesmo convivendo há décadas com baixos indicadores sociais, o Maranhão continua sendo um dos estados que mais apoiam eleitoralmente candidatos da esquerda em disputas presidenciais. Esse comportamento eleitoral alimenta interpretações divergentes.

Para alguns analistas, reflete a identificação histórica do eleitorado com políticas sociais e programas de transferência de renda. Para outros, evidencia que a população continua apostando em grupos políticos que ainda não conseguiram transformar o enorme potencial econômico do estado em desenvolvimento sustentável, renda e melhoria consistente da qualidade de vida.

Independentemente da posição política de cada eleitor, os indicadores mostram que o Maranhão continua enfrentando desafios estruturais profundos.

O estado que poderia ser referência nacional em desenvolvimento permanece convivendo com pobreza elevada, baixa renda, forte dependência do setor público, elevada tributação sobre o consumo e dificuldades para transformar suas riquezas naturais em prosperidade compartilhada.

Mais do que uma discussão partidária, trata-se de uma reflexão sobre gestão pública, planejamento econômico e eficiência das políticas adotadas ao longo das últimas décadas.

A principal pergunta permanece sem resposta definitiva: como um estado tão rico em potencial continua sendo um dos mais pobres do Brasil? Essa talvez seja uma das questões mais importantes que o Maranhão precisará responder nos próximos anos.

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
Mostrar mais comentários