
A morte de adversários de regimes autoritários mundo afora segue sempre o mesmo roteiro barato, desses que nem as antigas novelas mexicanas ousariam repetir. Tudo previsível, tudo grotesco, tudo igual. No manual dos tiranos, capítulo um, “como transformar opositores em cadáveres sem que ninguém faça perguntas”. E na Venezuela, Nicolás Maduro segue o roteiro à risca, como aluno aplicado de ditadura de quinta categoria.
O modus operandi é tão repetitivo que já deveria ser tombado como patrimônio do terror bolivariano. Reagiu ao regime, prisão. Respirou fundo, cela. Reclamou, cadeado. Morreu, inquérito arquivado. É simples, direto e brutal. E quando o preso aparece morto, o Estado faz aquilo que sabe fazer melhor, nada. Nem nota oficial, nem pudor, nem vergonha na cara. É como se tivessem “apenas” esquecido de regar a planta, só que a planta é um ser humano. O caso de Alfredo Díaz segue esse script macabro, tão repetitivo que beira o cinismo absoluto.
E o mais grotesco, quem informou a morte não foi o governo, mas uma ONG. Sim, uma ONG, porque o Estado venezuelano vive em sua própria bolha autoritária onde “explicar-se à sociedade” é considerado luxo. Qual foi a causa mortis? Por que o Estado não cuidou do custodiado? Por que não anunciou à nação? Perguntas básicas, claras, diretas. Mas no país de Maduro, perguntar é quase um delito. A resposta, silêncio sepulcral, talvez o único silêncio que o regime respeita.
A ONG Foro Penal expressou o óbvio revoltante, “outro preso político morto nas prisões venezuelanas”. Mais um número na planilha macabra do autoritarismo. Estava isolado, privado até da dignidade mínima, vendo a própria vida derreter enquanto o regime fingia que ele não existia. É revoltante, é desumano, é criminoso, mas na Venezuela virou rotina, como trocar a lâmpada quando queima, só que aqui quem queima é a esperança e quem apaga é a democracia.
O partido Voluntad Popular resumiu sem rodeios, Díaz morreu onde o regime decide quem vive e quem morre. Isso não é metáfora, é fato. No El Helicoide, não existe prontuário médico, só sentença. Infarto fulminante, dizem. Fulminante mesmo é a covardia de um regime que deixa um homem definhar pedindo atendimento médico enquanto sorri nas fotografias oficiais.
A esposa de Díaz, em um grito que rasga qualquer retórica, perguntou, “o que aconteceu com meu marido, o mataram?” A pergunta dispensa resposta, porque todos sabem. O líder opositor Leopoldo López lembrou o que virou padrão, “estava há meses pedindo atendimento e o negaram”. Na Venezuela de Maduro, pedir médico é quase pedir milagre.
Díaz foi preso após denunciar o óbvio, fraude eleitoral e apagão elétrico. Dois temas que, no dicionário bolivariano, equivalem a crime de lesa-pátria. A sequência foi automática, acusação, prisão, isolamento, morte. O pacote completo. Reclamou da urna, cela. Reclamou da luz, cadeia. Reclamou da vida, adeus.
E assim segue a Venezuela, um país onde opositores morrem, onde perguntas são proibidas, onde respostas são enterradas, onde a democracia virou lembrança distante, tudo sob o comando de um regime que coleciona cadáveres políticos como quem coleciona selos e ainda espera aplausos.
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