
A revelação de que o governo sabia das suspeitas de assédio sexual contra a ministra Anielle Franco há meses, e ainda assim permaneceu em silêncio até a demissão de Silvio Almeida, expõe uma falha preocupante na gestão da ética pública. Tanto Lula quanto Janja da Silva teriam conhecimento das investidas do então ministro, mas optaram por não agir até que a pressão social e da mídia se tornasse insustentável. Esse silêncio prolongado, mantido por mais de sete meses, levanta sérias dúvidas sobre a postura do governo frente a crimes de natureza moral e sexual. Para muitos, inclusive a oposição, esse comportamento reflete leniência e tolerância com o assédio, desafiando os princípios que o governo diz defender.
Embora a demissão de Silvio Almeida tenha sido acertada, o episódio escancara a necessidade de o governo adotar uma postura uniforme em todos os casos de má conduta. Quando há "frutos podres" na administração pública, o governo deveria agir com a mesma celeridade e rigor demonstrados no caso do ex-ministro dos Direitos Humanos. No entanto, esse critério parece não ser seguido quando se trata de figuras como o ministro das Comunicações, Juscelino Filho.
Investigado e indiciado pela Polícia Federal por crimes de corrupção, lavagem de dinheiro e organização criminosa, Juscelino Filho continua a desempenhar suas funções com uma desenvoltura que beira o desdém. Sua presença constante nos corredores da Esplanada dos Ministérios e no Palácio do Planalto revela a dualidade de tratamento que o governo oferece a seus membros. Enquanto o assédio sexual é tratado como um crime imperdoável – e com razão –, a corrupção parece ser vista como um mal menor, algo "tolerável" até que a Procuradoria-Geral da República decida agir.
Essa dualidade revela um problema profundo na forma como o governo enxerga a gravidade dos crimes que seus membros cometem. A complacência com a corrupção e outros desvios de conduta financeira, especialmente quando envolvem figuras de poder, mina a credibilidade do governo e coloca em risco a confiança da população. A postura de "dois pesos e duas medidas" cria um ambiente onde alguns crimes são tratados com mais seriedade que outros, sugerindo que há hierarquias até mesmo no julgamento de condutas imorais e ilegais.
A realidade é clara: crimes de assédio e corrupção têm impactos devastadores, tanto para as vítimas diretas quanto para a sociedade como um todo. O governo precisa reconhecer que não há crime menor ou maior quando se trata de integridade pública. A conivência com qualquer tipo de delito, seja ele moral ou financeiro, alimenta um ciclo de impunidade que corrói a base ética da administração pública. Se Lula e seu governo querem ser verdadeiramente justos, é imperativo que ajam com o mesmo rigor em todos os casos, sem distinções.
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