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Internacional SOBRETAXA DE 40%

O “recuo estratégico” de Trump que não muda nada para o Brasil

Casa Branca flexibiliza tarifas, mas mantém castigo de 40% exclusivo ao Brasil - e o agronegócio vira figurante em uma guerra comercial que já nos trata como alvo preferencial

15/11/2025 às 11h56
Por: Douglas Ferreira
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O presidente recuou no tarifaço mas nem tanto - Foto: Reprodução
O presidente recuou no tarifaço mas nem tanto - Foto: Reprodução

A decisão de Donald Trump de aliviar parcialmente as tarifas sobre produtos agrícolas estrangeiros foi recebida, no Brasil, com suspiros de alívio, daqueles que duram cinco segundos. Afinal, a flexibilização atinge apenas a tarifa global de 10%, aquela que veio “para todos”. Já a verdadeira âncora que puxa o Brasil para o fundo do comércio internacional, a sobretaxa de 40% aplicada exclusivamente ao país, permanece intacta. Ou seja: Trump recuou, mas só na parte que não muda nossa vida.

A Confederação Nacional da Indústria deixou claro o tamanho da paulada: 73,8% das exportações brasileiras para os EUA continuam submetidas ao tarifaço. Antes eram 77,8%. A diferença? Um suspiro, não um horizonte. Para a indústria brasileira, especialmente nos setores de química, plástico, máquinas industriais e autopeças, o cenário permanece um labirinto tarifário de quase 40% de custo adicional, um presente que ninguém pediu e que Trump fez questão de manter embrulhado.

Os produtos que ficaram livres da tarifa de 10% integram uma lista de alimentos globais: café, carne bovina premium, açaí, castanhas, frutas tropicais. É verdade que esses itens têm peso importante no agronegócio brasileiro, mas o alívio não é direcionado ao Brasil, é um aceno geral, parte da política protecionista “customizada” da Casa Branca e, segundo Trump, motivada por “segurança nacional” e pelo desejo nobre de “corrigir déficits comerciais persistentes”.

A narrativa oficial é tão velha quanto previsível. Trump não esconde que tarifas são instrumentos políticos antes de serem econômicos. Ao retirar alguns produtos agrícolas do pacote, cria uma aparência de moderação. Mas, ao manter o castigo de 40% sobre o Brasil, reforça um recado claro: quando o assunto é comércio exterior, Washington escolhe alvos e mantém pressão até conseguir o que quer, ou o que julga querer naquela semana.

O governo norte-americano ainda fez questão de oferecer um toque teatral. A bordo do Air Force One, Trump declarou que “os preços do café estavam um pouco altos” e que, graças ao recuo, “ficarão mais baixos em um período muito curto”. De novo: teatralidade. Bolsonaro fazia lives; Trump faz tarifaços performáticos. O efeito econômico real? Para o Brasil, quase zero. Para o consumidor americano de café, talvez alguns centavos a menos, se muito.

O mais preocupante é que setores industriais brasileiros, que dependem fortemente do mercado americano, continuam sangrando. O custo adicional de quase 40% inviabiliza negócios, reduz competitividade e faz com que compradores americanos migrem para fornecedores de países menos penalizados. O Brasil, que já enfrentava dificuldades estruturais na indústria, agora também briga contra um muro alfandegário sob medida.

E o governo brasileiro? Tenta decifrar o enigma diplomático. A flexibilização anunciada não tem nada de gesto bilateral, foi ampla, geral e irrestrita. Se o Brasil quiser se livrar da sobretaxa exclusiva, terá de negociar diretamente com Washington, onde a mesa nunca é neutra e o jogo é, por natureza, assimétrico. Para piorar, o ambiente de campanha presidencial nos EUA transforma qualquer concessão em munição política.

A grande pergunta permanece: o recuo de Trump abre espaço para novas reduções tarifárias ao Brasil? A resposta honesta, e desanimadora, é não. Se houvesse intenção de aliviar o peso sobre o Brasil, a sobretaxa de 40% teria sido revista agora. Manter essa camada específica revela que o país segue no radar negativo da Casa Branca. Não há indicação de que novas flexibilizações estejam no horizonte.

No curto prazo, o agronegócio respira superficialmente com a retirada da tarifa global de 10%, mas a indústria segue trancada no purgatório tarifário. No médio prazo, o Brasil precisa decidir se continuará assistindo às oscilações unilaterais de Washington ou se estruturará uma política comercial menos dependente do humor americano. Hoje, somos reféns, e não por falta de aviso.

No fim das contas, a “redução de tarifas” anunciada por Trump funciona como propaganda, não como política comercial efetiva para o Brasil. Tiraram um peso que não era nosso e mantiveram o que de fato nos esmaga. A narrativa oficial fala em alívio; os números falam em continuidade. O Brasil ganhou um recuo que, para nós, não recua nada. E enquanto isso, a sobretaxa de 40% segue firme, lembrando que, na geopolítica, o Brasil ainda é tratado como coadjuvante — e mal pago.

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