
A cena se repete, o roteiro é conhecido e o desfecho previsível: líderes de esquerda voltando ao banco dos réus, acusados de enriquecerem enquanto pregavam justiça social. Na Argentina, Cristina Kirchner — ícone do populismo latino-americano — é novamente julgada por corrupção, desta vez no escândalo dos “Cadernos da Propina”, ou caso Cuadernos. O processo, descrito pelo Ministério Público como a maior investigação de corrupção do país, expõe um verdadeiro manual de como o poder e a propina se tornaram inseparáveis.
Cristina, que cumpre prisão domiciliar pela condenação de seis anos no caso Vialidad, volta ao centro das atenções por um novo esquema que envolve malas de dinheiro, empresários cúmplices e políticos de confiança. Tudo registrado, ironicamente, nos cadernos de um motorista — Oscar Centeno — que, cansado de ser espectador do teatro do roubo, decidiu escrever o enredo da corrupção kirchnerista.
Nos relatos, malas lotadas de dólares circulavam entre ministérios e mansões presidenciais, enquanto o discurso público era de “defesa dos pobres”. O socialismo de resultados — mas apenas para os de dentro do sistema.
E, como em um filme de terror com franquia internacional, o enredo não é exclusivo da Argentina. O mesmo script se repete em Brasília, Caracas, Havana, Santiago, Bogotá e Madrid. Onde há esquerda no poder, há uma engrenagem política sustentada por propinas, fundos secretos e empresas fantasmas. É o que poderíamos chamar de “corrupção sistêmica institucionalizada” — ou, em termos mais diretos, o DNA da esquerda moderna.
O caso Cuadernos, revelado em 2018 pelo jornalista Diego Cabot, envolve 87 réus, entre ex-ministros e empresários. A Justiça argentina estima ouvir 626 testemunhas até 2026 — um espetáculo judicial que deve arrastar por anos o que a moral pública já condenou há décadas.
Enquanto isso, Cristina — outrora celebrada como “mãe dos pobres” — agora é símbolo de uma casta que se alimenta da miséria que diz combater. O mesmo modelo que enriqueceu partidos e líderes em nome de “justiças sociais”, enquanto saqueava cofres públicos e vendia discursos ideológicos a preço de ouro.
A pergunta que ecoa não é nova, mas segue sem resposta: será que existe esquerda sem corrupção? Ou seria a corrupção apenas a ferramenta mais eficiente da esquerda para se manter no poder — sorrindo em nome do povo, mas governando em nome do próprio bolso?
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