
A essa altura do campeonato, ser recebido na Casa Branca já é, por si só, um avanço político. Mas, pelo visto, a tão aguardada reunião entre o chanceler brasileiro Mauro Vieira e o secretário de Estado norte-americano Marco Rubio ficou aquém das expectativas do Palácio do Planalto. Brasília esperava um gesto concreto, um sinal de distensão. No entanto, o que se viu foi apenas um aperto de mão diplomático, sem resultados práticos.
O encontro, que durou menos de uma hora, foi descrito pelo Itamaraty como “muito produtivo”. Vieira tentou imprimir um tom otimista, afirmando que houve um “clima excelente de descontração e troca de ideias”. Porém, o resumo da ópera foi outro: nenhuma decisão efetiva e nenhuma sinalização de mudança nas tarifas impostas por Washington aos produtos brasileiros.
Fontes ligadas ao governo norte-americano afirmam que as sanções e o tarifaço continuam. Rubio teria deixado claro que qualquer reavaliação das medidas dependerá do que chamou de “fim da opressão judicial” no Brasil — uma referência indireta às decisões do Supremo Tribunal Federal (STF) e ao caso do ex-presidente Jair Bolsonaro. Em outras palavras: a bola está com o Judiciário brasileiro.
Mauro Vieira, por sua vez, insistiu que o encontro foi “satisfatório”. Mas, entre diplomatas mais experientes, a sensação é de que não houve química entre as partes. O diálogo seguiu protocolar, frio e sem concessões. Como se diz no ditado popular, “tudo permaneceu como dantes na terra de Abrantes”.
Para o Planalto, a missão de Vieira era clara: tentar reaproximar Brasília e Washington após meses de atritos. O governo Lula esperava que a reunião fosse o primeiro passo rumo a uma revisão do tarifaço e à normalização das relações comerciais. Mas, na prática, o encontro serviu apenas como um gesto de cortesia política, sem efeitos imediatos.
A diplomacia brasileira aposta agora em negociações futuras. Vieira e Rubio concordaram em retomar o diálogo “em breve” e definir uma agenda bilateral sobre comércio e investimentos. O chanceler garantiu que as equipes técnicas já trabalham na preparação dos encontros. Contudo, até o momento, não há data definida nem garantias de avanço.
Outro tema sensível foi o possível encontro entre os presidentes Donald Trump e Luiz Inácio Lula da Silva. Segundo Vieira, os dois líderes “devem se reunir em breve”, talvez na Cúpula da ASEAN, na Malásia. Mas o encontro depende da agenda de ambos, e a Casa Branca ainda não confirmou oficialmente o interesse.
O fato é que este foi o primeiro contato oficial entre o chanceler brasileiro e o secretário de Estado dos EUA desde que Trump reassumiu o poder. A visita de Vieira à Casa Branca ocorre em um momento de tensões comerciais e políticas, agravadas pelas sanções americanas contra ministros do STF e pela inclusão de Alexandre de Moraes na lista Magnitsky, que pune violações de direitos humanos e corrupção.
Analistas avaliam que, desta vez, o impasse entre os dois países é menos técnico e mais político. Trump tem usado as tarifas como instrumento de pressão para demonstrar insatisfação com o Judiciário brasileiro e com o tratamento dado a Bolsonaro. Assim, as divergências comerciais se misturam à disputa ideológica entre direita e esquerda, elevando o tom da crise diplomática.
No fim das contas, o encontro em Washington mostrou que o congelamento das relações Brasil–EUA vai além da economia. A política, como sempre, fala mais alto. Vieira pode ter saído da Casa Branca com um sorriso e boas fotos, mas voltou sem garantias. Por ora, o aperto de mão com Marco Rubio foi apenas simbólico — mais um capítulo de uma relação que continua fria, cautelosa e repleta de desconfianças mútuas.
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