
Dando continuidade à nossa série sobre os grandes juristas brasileiros, abrimos espaço para falar de mais um cearense: o brilhante e irreverente José Quintino Cunha. Natural de Itapajé, antiga São Francisco de Uruburetama, Quintino foi um cidadão do mundo, vivendo no Pará e no Rio de Janeiro e visitando diversos países da Europa. Além de jurista renomado, POETA E ADVOGADO, Quintino Cunha dedicou-se às letras, sendo também escritor, com livro lançado em Paris. Em Portugal, recebeu a Medalha de Ouro das mãos do rei Dom Manuel II, consolidando seu prestígio internacional.
Certa vez, em pleno tribunal, o brilhante José Quintino Cunha foi defender um homem acusado de roubar uma galinha. O promotor, todo empolado, chamou o réu de “infrator da ordem e da moral pública”. Quando chegou a vez de Quintino falar, ele ajeitou o paletó, sorriu e disparou:
— Meritíssimo, o meu cliente não é ladrão, é um apreciador de frangos! A diferença é que ele só não teve dinheiro pra pagar o gosto!
O público caiu na gargalhada. O juiz, tentando manter a compostura, escondeu o riso atrás da mão. E o veredito? Absolvição imediata. O réu saiu livre — e prometeu nunca mais “apreciar frango” sem pagar.
Era assim o Quintino Cunha — poeta e advogado com atuação marcante nos tribunais, conhecido por suas estratégias incomuns e irreverência durante os julgamentos, sempre usando humor, criatividade e empatia para conquistar vitórias improváveis. Nascido em Itapajé (CE), em 1875, formou-se em Direito em 1909, mas já advogava muito antes — porque sua verdadeira lei era o bom senso e o coração do povo.
Quintino via o tribunal como um palco e o júri como plateia. Para ele, cada julgamento era um espetáculo da alma humana, e sua missão era mostrar que justiça sem compaixão vira apenas papel timbrado. Usava versos, ironias e ditos populares para defender o que acreditava. Era impossível não rir — e, ao mesmo tempo, não pensar.
Além de advogado brilhante, foi poeta, jornalista, orador e deputado estadual. Sua verve o levou muito além das fronteiras do Ceará. Entre suas obras, destaca-se o livro “Pelo Solimões”, lançado em Paris, onde conheceu ninguém menos que Santos Dumont, de quem se tornou grande amigo. O sucesso foi tanto que, em seguida, em Portugal, recebeu uma comenda e medalha de ouro das mãos do rei Dom Manuel II, um feito raro para um brasileiro nascido no sertão.
Mas, apesar da glória internacional, nunca abandonou suas origens. Continuava o mesmo homem simples, de fala rápida e olhar travesso, que usava a inteligência como ferramenta de justiça. Quintino não temia os poderosos nem se curvava à pompa dos tribunais — seu compromisso era com o povo e com a verdade.
Dizia-se dele que “não havia caso perdido, apenas juízes mal-humorados”. E se o juiz fosse desses carrancudos, bastava uma tirada de Quintino para o ambiente mudar. Ele sabia que o riso desarma, e fazia da alegria sua melhor estratégia.
Na literatura, deixou uma obra marcada pelo espírito cearense: leve, provocadora, humana e cheia de sabedoria popular. Escreveu para o povo e sobre o povo. Seu nome atravessou o tempo, misturando-se à cultura nordestina, ao humor e à poesia que até hoje inspiram juristas, escritores e artistas.
Certa feita, perguntaram-lhe por que usava tanto humor em sua profissão. Ele respondeu, com ironia mansa:
— Porque o riso é a forma mais bonita de ensinar o que o coração já sabe, mas o mundo esqueceu.
Era assim Quintino — capaz de fazer pensar até quem achava que estava só se divertindo.
Seu legado permanece vivo — nas letras, nos tribunais, nas anedotas e nos corações de quem ainda acredita que o Direito pode rimar com justiça e o riso pode rimar com verdade.
E pra fechar, outro causo impagável: em certa audiência, o promotor zombou de seu cliente, dizendo que ele “não tinha onde cair morto”. Quintino, com aquele olhar de quem já sabia o final da história, respondeu:
— Meritíssimo, o doutor tem razão. O meu cliente não tem onde cair morto... mas tem onde cair em pé: na proteção da Justiça!
O juiz sorriu, a plateia aplaudiu, e o réu saiu livre — prova viva de que, às vezes, uma boa dose de humor vale mais que mil páginas de códigos.
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