
No Brasil, tudo parece ser superlativo ou ínfimo, dependendo das circunstâncias e dos atores em cena. Nem mesmo o Judiciário está imune a essa lógica enviesada, covarde e perversa. Senão vejamos: a Constituição Federal de 1988, em seu Artigo 5º, proclama solenemente que “todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza”. Mas será mesmo? Na prática, não é exatamente isso que se vê.
A máxima da igualdade diante da lei tem se transformado em ficção. No cotidiano jurídico brasileiro, a regra é outra: aos amigos, as benesses da lei; aos inimigos, o peso esmagador da Justiça. O brocardo latino “Dura lex, sed lex” - a lei é dura, mas é a lei - virou peça decorativa em livros de Direito. A lei, muitas vezes, é feita para os fracos, para os pobres, para a ralé.
Dois exemplos escancaram essa distorção. O primeiro: Débora Rodrigues dos Santos, a “Débora do Batom”, foi condenada a 14 anos de prisão pelo STF por ter pichado com "gloss" uma estátua durante os atos de 8 de janeiro. Isso mesmo: catorze anos. Sem direito ao duplo grau de jurisdição, já que a Suprema Corte se arrogou como juízo único.
O segundo: os empresários e músicos condenados pela tragédia da Boate Kiss, em Santa Maria, responsáveis pela morte de 242 pessoas e ferimentos em mais de 600, tiveram suas penas reduzidas pelo Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul. Agora, cumprem pouco mais de 10 a 12 anos de prisão. Pior: já pleiteiam progressão de regime, podendo em breve estar no semiaberto.
A pergunta é inevitável: uma vida vale menos do que uma estátua manchada de batom?
Que justiça é essa que pune com mais severidade quem rabisca um monumento do que quem ceifa centenas de vidas?
O Judiciário argumenta tecnicamente: no caso da Kiss, houve readequação de dosimetria; no caso do 8 de janeiro, tratava-se de crimes contra o Estado Democrático de Direito. Mas, para a sociedade, a mensagem que fica é outra: a simbologia pesa mais do que a vida. O patrimônio institucional é protegido com mais rigor do que o direito fundamental à existência.
Essa inversão de valores corrói a confiança na Justiça. Gera a percepção de que não existe um padrão universal de punição, mas sim uma balança manipulada conforme o interesse ou o impacto político do caso.
E então, fica a pergunta final:
Que país é este que pune a morte de 242 pessoas com mais brandura do que a tinta de um batom camim?
Que Judiciário é este que coloca o símbolo acima da vida?
E que futuro estamos construindo quando os filhos e netos herdarão um sistema onde a justiça não é cega, mas seletiva? Até porque é como o povo costuma falar: "a justiça que não é justa, não é justiça"
CONDENADO Justiça condena escrivão a 17 anos por esquema de venda de motos apreendidas
COMIDA CARA Governo Lula recorre ao TSE contra vídeos sobre preço dos alimentos e abre debate sobre liberdade de expressão
SEGURANÇA JURÍDICA A manobra de Moraes após derrota no STF abre novo capítulo no caso do 8 de Janeiro
OPERAÇÃO VÉRNIX MP aponta Deolane como peça central de núcleo financeiro investigado por ligação com o PCC
MARIA DA PENHA Advogada alerta para risco de perda de efetividade da Lei Maria da Penha após ampliação do STF
DURA LEX SED LEX? Em busca do diferente?
LIVRE EXPRESSÃO Justiça do RN manda Meta reativar perfis bloqueados por Moraes Crianças e internet Quando a tragédia chega antes da lei A decisão da Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD) de determinar preventivamente que o Discord suspenda as transmissões ao vivo no Brasil expõe um problema muito maior do que uma plataforma.
JUSTIÇA ELEITORAL Caso Flávio expõe uma questão que não pode ser ignorada: nenhum sistema informatizado é inviolável Mín. 24° Máx. 38°