
Por determinação do procurador-geral da República, Paulo Gonet, a Polícia Federal foi orientada a acompanhar em tempo integral os movimentos na residência do ex-presidente Jair Bolsonaro, preso em prisão domiciliar em Brasília. A justificativa oficial é garantir o cumprimento das medidas cautelares impostas pelo ministro Alexandre de Moraes, do STF. Mas, na prática, a ordem parece ter outro objetivo: impedir qualquer possibilidade — ainda que remota — de fuga do ex-presidente.
E aqui surge a pergunta inevitável: haveria real risco de fuga? Difícil acreditar. Se essa fosse a intenção, Bolsonaro já teria deixado o país há muito tempo. Fugir do Brasil, convenhamos, não é tarefa impossível — é mais fácil do que roubar aposentado no INSS. A diferença é que Bolsonaro nunca deu esse passo.
A PGR, no entanto, sustenta que um documento encontrado no celular de Bolsonaro justificaria tamanho rigor: um rascunho de pedido de asilo político ao presidente argentino Javier Milei, datado de fevereiro de 2024. O detalhe incômodo é que o documento jamais foi enviado. Ou seja, tratava-se apenas de um rascunho, uma ideia abandonada. Ainda assim, foi o suficiente para que a PGR pedisse à PF vigilância permanente sobre a casa do ex-presidente.
O ponto mais grave está na comparação histórica: em qual outro momento da República um político, mesmo investigado, foi monitorado dessa forma? Nenhum. A medida soa menos como cautela e mais como sinal inequívoco de perseguição. Bolsonaro, odiado pela esquerda e caçado pelo sistema, transforma-se em alvo único de um cerco judicial sem precedentes no Brasil.
Além disso, chama atenção o contraste com casos de corrupção bilionária envolvendo figurões da política e empresários ligados a governos anteriores. Muitos desses processos se arrastaram por anos, com réus soltos, sem tornozeleira e sem qualquer vigilância ostensiva. Mas, com Bolsonaro, a resposta é imediata, rigorosa e midiática — um tratamento que levanta dúvidas sobre seletividade e uso político das instituições.
Outro ponto inquietante é o impacto dessa estratégia no imaginário popular. Para os aliados, o ex-presidente não é visto como um investigado comum, mas como vítima de perseguição orquestrada. Cada nova medida punitiva, em vez de fragilizá-lo, reforça sua imagem de resistência contra um sistema que estaria disposto a tudo para aniquilá-lo politicamente. O efeito pode ser justamente o contrário do esperado: transformar Bolsonaro em mártir e alimentar ainda mais a força de sua base eleitoral.
MEDIDAS CAUTELARES Justiça revoga prisão de empresário acusado de tentativa de homicídio em Teresina; entenda os fundamentos da decisão
TETO CONSTITUCIONAL STF voltou atrás nos penduricalhos? Entenda o que realmente está sendo julgado
PRISÃO PREVENTIVA Saiba quem é o homem preso por vender vídeos de sexo e que teve a prisão mantida pela Justiça Mín. 23° Máx. 32°