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Justiça que solta, crime que prospera: Brasil à beira de um narco-estado

Decisões judiciais que libertam traficantes flagrados com centenas de quilos de drogas expõem a fragilidade do sistema e alimentam a imagem do Brasil como paraíso do narcotráfico

24/08/2025 às 18h31 Atualizada em 24/08/2025 às 20h32
Por: Douglas Ferreira
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Juiz Marcelo Nalesso Salmaso para quem 200 kg “não é nada” - Foto: Reprodução
Juiz Marcelo Nalesso Salmaso para quem 200 kg “não é nada” - Foto: Reprodução

Justiça cega, sociedade refém: quando 200 kg de cocaína “não é nada”

No Brasil, a máxima “a polícia prende e a justiça solta” deixou de ser um desabafo popular para se consolidar como retrato cruel da realidade. O caso recente em Itu (SP) é um escândalo que desafia o bom senso: um homem foi preso com 200 kg de pasta base de cocaína e, após audiência de custódia, saiu pela porta da frente do fórum sem pagar sequer um centavo de fiança. A justificativa? O juiz Marcelo Nalesso Salmaso entendeu que a quantidade de droga “não foi exacerbada”, enquadrando o caso como “tráfico privilegiado”.

A situação é tão absurda que, de forma irônica, só faltou o magistrado determinar a devolução da carga ao traficante. A droga seria levada para Campos do Jordão, mas foi apreendida após perseguição na Rodovia Castello Branco, em Sorocaba. O Ministério Público já recorreu, mas o estrago está feito: a sensação de impunidade escorre pelas mãos da Justiça.

E não foi um caso isolado. Em outro episódio recente, também em São Paulo, um juiz concedeu liberdade a um traficante pego com 800 kg de drogas. Sim, oitocentos quilos. A decisão seguiu a mesma linha de raciocínio: a aplicação do chamado “tráfico privilegiado”. Em ambos os casos, o recado transmitido é devastador — traficar no Brasil virou privilégio.

Carga de 200kg apreendida com o traficante solto pelo juiz Marcelo Nolesso - Foto: Reprodução

 

O Brasil e sua rota de cocaína: de exportador de violência a “narco-estado”

Essas decisões judiciais não podem ser vistas como erros isolados. Elas se encaixam num cenário em que o Brasil já ocupa posição estratégica no mapa do narcotráfico global. O país é um dos maiores corredores de escoamento de cocaína da América do Sul para a Europa e África. Relatórios da UNODC (Escritório da ONU sobre Drogas e Crime) apontam que portos como Santos (SP), Paranaguá (PR) e Itajaí (SC) estão entre os principais corredores da droga que sai do continente.

Em 2023, somente no Porto de Santos, mais de 30 toneladas de cocaína foram apreendidas, escondidas em contêineres com destino à Bélgica e à Holanda. O Brasil se transformou em uma das maiores plataformas de exportação de drogas do mundo, com facções criminosas como PCC e Comando Vermelho dominando rotas e ampliando conexões internacionais.

Enquanto isso, dentro do país, magistrados relativizam o peso de 200 ou 800 quilos de cocaína, decisões que equivalem a um salvo-conduto para o crime organizado. Não é exagero afirmar que, diante de casos assim, o Brasil já é visto no exterior como um narco-estado em formação — um país onde leis frouxas, brechas jurídicas e interpretações distorcidas abrem espaço para que o tráfico se consolide como atividade de baixo risco e alto lucro.

O que resta à sociedade?

A polícia arrisca a vida para interceptar cargas milionárias de drogas, mas o esforço é neutralizado por decisões judiciais que tratam centenas de quilos de cocaína como “pequena quantidade”. O que resta ao cidadão comum, senão a descrença na Justiça e a convicção de que o crime compensa?

Esses episódios não são apenas “falhas” do sistema: são feridas abertas na credibilidade do Judiciário. Se o Brasil continuar permitindo que traficantes saiam livres, leves e soltos, enquanto carregam toneladas de drogas, não será apenas a sociedade que perderá a confiança. O país inteiro correrá o risco de ser definitivamente reconhecido como o que já aparenta ser: um narco-estado de toga.

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