
No Piauí, o que era “atípico” se tornou rotina: advogados — alguns com sólida reputação — sugaram o bojo da justiça e transformaram o sistema em trampolim para fraudes audaciosas. Mas o que aconteceu no TJPI ultrapassa qualquer desvio comum: foi descoberta uma quadrilha que inseria decisões judiciais falsas diretamente no sistema, anulando apreensões de veículos e acelerando processos a seu favor.
Na terceira fase da Operação Usuário Zero, foram identificados 12 advogados envolvidos, além de um servidor comissionado do TJPI — o operador central do esquema:
Servidor-chave: ex-comissionado João Gabriel Costa Cardoso, que invadia o sistema PJe para manipular decisões e chegou a tentar fraudar um concurso público.
De acordo com o delegado Yan Brayner (DIPC), João Gabriel se aproveitou do funcionamento normal do sistema — chegou a pesquisar no Google "como alterar e-mail do PJe" para cadastrar usuários falsos e inserir decisões favoráveis — como de mágica. Muitas dessas minutas foram assinadas por juízes e desembargadores que, confiantes, acharam que vinham dos bastidores de seus gabinetes.
Apreensões: cinco veículos de luxo foram colocados sob custódia (incluindo um Camaro amarelo).
Valor movimentado: estimam-se R$ 10 milhões em bens recuperados por meio das fraudes.
Pagamentos: João Gabriel teria recebido de R$ 2 a R$ 3 mil por intervenção bem-sucedida, chegando a R$ 110 mil em um mês.
Nada escandaliza mais do que o silêncio da OAB-PI. Até agora, não houve pronunciamento oficial apoiando a investigação, instauração de processo ético ou mesmo retirada da carteira de advogados suspeitos. Essa omissão deixa claro que, em vez de defender a integridade da classe, a entidade prefere permanecer à espreita — o que, diante da gravidade dos fatos, causa estranheza.
Infelizmente, sim. Casos semelhantes já foram registrados pelo país:
Operação Expresso 150, no Ceará: advogados e desembargadores envolvidos na venda de liminares por até R$150 mil.
Operação Anaconda, em São Paulo: esquema com envolvimento de juízes, advogados e delegados na venda de sentenças.
Operação Honoris Criminis, em Goiás: advogados atuando para facções criminosas.
Em Mato Grosso do Sul, advogados foram identificados como “pombos-correio” auxiliando facções na comunicação com presos.
Esses casos mostram que, infelizmente, o que ocorre no Piauí não é exceção em um país onde a advocacia pode, para alguns, significar risco de verdade.
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