
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o líder russo Vladimir Putin conversaram por cerca de 40 minutos na manhã deste sábado (9). O assunto, segundo versões oficiais do Kremlin e do Palácio do Planalto, teria girado em torno da guerra na Ucrânia e das articulações do Brics. Até aí, nada além do esperado. O problema é o que não foi dito — e que talvez seja o que realmente importa.
Ambos classificaram o diálogo como “amistoso”. O Kremlin destacou que Putin compartilhou “esforços pela paz” e agradeceu o “empenho do Brasil” no tema. Já a nota do Planalto mencionou a cooperação no Brics e a preparação de uma nova edição da Comissão de Alto Nível Brasil–Rússia ainda este ano. Nenhuma das partes, porém, detalhou posições, propostas ou eventuais compromissos assumidos.
Enquanto a guerra no leste europeu se aproxima do terceiro ano, o Brasil tem aumentado exponencialmente as compras de combustível russo — em especial óleo diesel, que quintuplicou nas importações. Washington não tem escondido o incômodo: autoridades americanas já alertaram que comprar petróleo de Moscou significa, na prática, financiar a máquina de guerra russa.
Ou seja, Lula defende publicamente um cessar-fogo, mas, ao mesmo tempo, engorda o caixa do Kremlin com dólares brasileiros. Essa contradição, que no mínimo fragiliza a coerência diplomática, abre espaço para medidas de retaliação. Um tarifaço americano sobre produtos brasileiros — ou até bloqueios comerciais — não é cenário impossível.
Putin aproveitou a ligação para parabenizar o Brasil pela última Cúpula do Brics, realizada no Rio de Janeiro, e reforçar o papel do bloco na “reorganização da ordem mundial”. A retórica ecoa o discurso de Moscou e Pequim de reduzir a dependência do Ocidente, algo que incomoda diretamente os EUA — especialmente com o Brasil posicionado como parceiro econômico cada vez mais próximo da Rússia.
No pano de fundo, uma ironia histórica: ao estreitar laços com Putin, Lula flerta com um regime que exalta o poder militar, exatamente o tipo de ideologia contra a qual soldados brasileiros da Força Expedicionária lutaram na Segunda Guerra Mundial.
O conteúdo exato da conversa continua guardado a sete chaves. Mas, considerando o momento, o telefonema de Putin para Lula vai muito além de “amizade” e “cooperação”. Ele se insere no xadrez geopolítico que pode redefinir o peso do Brasil entre potências — e colocar o país no meio de uma disputa onde boas intenções não bastam para blindar interesses comerciais e estratégicos.
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