
Em 1970, em plena ditadura militar, Chico Buarque escreveu uma das mais emblemáticas canções da resistência: Apesar de Você. O alvo, velado, era o regime que sufocava vozes, censurava jornais e encarcerava opositores. Mais de meio século depois, a letra ressurge quase como uma profecia do Brasil de 2025 — onde um ministro da Suprema Corte concentra em si funções de polícia, acusador, juiz e carcereiro.
Nesta segunda-feira (4), o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou a prisão domiciliar do ex-presidente Jair Bolsonaro, impondo-lhe tornozeleira eletrônica, proibindo-o de se comunicar com aliados — inclusive o próprio filho, o deputado Eduardo Bolsonaro, hoje nos Estados Unidos —, além de vetar o uso de redes sociais, celular e até mesmo visitas. Como se não bastasse, ordenou o recolhimento dos aparelhos de terceiros que estejam na residência do ex-presidente. Em outras palavras: a tentativa de calar 100% Bolsonaro.
A canção de Chico Buarque parece escrita para a cena atual. “Hoje você é quem manda, falou, tá falado, não tem discussão”. Moraes, de toga, repete a lógica dos generais fardados de outrora: decisões monocráticas, sem contraditório, ao arrepio da lei. Até mesmo acadêmicos de Direito reconhecem a incongruência: como pode um magistrado ser investigador, promotor, julgador e executor da pena?
Desde o chamado “inquérito do fim do mundo”, instaurado em 2019, acumulam-se medidas que escapam ao texto constitucional. O que deveria ser uma Corte guardiã da Constituição tornou-se, aos olhos de muitos, um tribunal de exceção.
O governo e setores da esquerda insistem em chamar esse arranjo de “defesa da democracia”. Mas que democracia é essa, onde políticos são perseguidos, jornalistas silenciados, cidadãos intimidados? Que democracia é essa que impede um ex-presidente de falar até com a própria família?
Chico escreveu: “Você que inventou esse estado e inventou de inventar toda a escuridão”. Hoje, as palavras soam atuais. O país que tanto condenou a opressão revive, sob outra roupagem, práticas de perseguição típicas de regimes autoritários — seja em Cuba, na Venezuela ou, como lembram alguns, nos tempos da União Soviética.
Os atos de rua que ecoam “Fora Lula” e “Fora Moraes” são o galo da canção de Chico — insistindo em cantar, apesar da tentativa de abafamento. Há um Brasil inteiro olhando “de lado e para o chão”, temendo o próximo alvo. Mas há também um país em ebulição, que pergunta: até onde vai isso?
As consequências podem ser graves. Se o STF e seu ministro mais poderoso seguirem nessa escalada, estaremos não diante de uma democracia em crise, mas da consolidação de uma ditadura da toga.
E a história já ensinou: não há regime que resista eternamente a calar um povo. “Apesar de você, amanhã há de ser outro dia”.
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