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Justiça DITADURA DA TOGA

“Apesar de Moraes: amanhã o Brasil há de ser outro dia”

Decisão contra Bolsonaro expõe arbitrariedades do STF, evoca Chico Buarque e reacende o temor de uma ditadura da toga em pleno ‘Brasil democrático’

04/08/2025 às 20h41 Atualizada em 04/08/2025 às 21h11
Por: Douglas Ferreira
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O ministro Alexandre de Moraes, deve sentir, o “Grande” - Foto: Reprodução
O ministro Alexandre de Moraes, deve sentir, o “Grande” - Foto: Reprodução

Em 1970, em plena ditadura militar, Chico Buarque escreveu uma das mais emblemáticas canções da resistência: Apesar de Você. O alvo, velado, era o regime que sufocava vozes, censurava jornais e encarcerava opositores. Mais de meio século depois, a letra ressurge quase como uma profecia do Brasil de 2025 — onde um ministro da Suprema Corte concentra em si funções de polícia, acusador, juiz e carcereiro.

Nesta segunda-feira (4), o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou a prisão domiciliar do ex-presidente Jair Bolsonaro, impondo-lhe tornozeleira eletrônica, proibindo-o de se comunicar com aliados — inclusive o próprio filho, o deputado Eduardo Bolsonaro, hoje nos Estados Unidos —, além de vetar o uso de redes sociais, celular e até mesmo visitas. Como se não bastasse, ordenou o recolhimento dos aparelhos de terceiros que estejam na residência do ex-presidente. Em outras palavras: a tentativa de calar 100% Bolsonaro.

"Hoje você é quem manda, falou, tá falado"

A canção de Chico Buarque parece escrita para a cena atual. “Hoje você é quem manda, falou, tá falado, não tem discussão”. Moraes, de toga, repete a lógica dos generais fardados de outrora: decisões monocráticas, sem contraditório, ao arrepio da lei. Até mesmo acadêmicos de Direito reconhecem a incongruência: como pode um magistrado ser investigador, promotor, julgador e executor da pena?

Desde o chamado “inquérito do fim do mundo”, instaurado em 2019, acumulam-se medidas que escapam ao texto constitucional. O que deveria ser uma Corte guardiã da Constituição tornou-se, aos olhos de muitos, um tribunal de exceção.

A democracia da mordaça

O governo e setores da esquerda insistem em chamar esse arranjo de “defesa da democracia”. Mas que democracia é essa, onde políticos são perseguidos, jornalistas silenciados, cidadãos intimidados? Que democracia é essa que impede um ex-presidente de falar até com a própria família?

Chico escreveu: “Você que inventou esse estado e inventou de inventar toda a escuridão”. Hoje, as palavras soam atuais. O país que tanto condenou a opressão revive, sob outra roupagem, práticas de perseguição típicas de regimes autoritários — seja em Cuba, na Venezuela ou, como lembram alguns, nos tempos da União Soviética.

"Apesar de você, amanhã há de ser outro dia"

Os atos de rua que ecoam “Fora Lula” e “Fora Moraes” são o galo da canção de Chico — insistindo em cantar, apesar da tentativa de abafamento. Há um Brasil inteiro olhando “de lado e para o chão”, temendo o próximo alvo. Mas há também um país em ebulição, que pergunta: até onde vai isso?

As consequências podem ser graves. Se o STF e seu ministro mais poderoso seguirem nessa escalada, estaremos não diante de uma democracia em crise, mas da consolidação de uma ditadura da toga.

E a história já ensinou: não há regime que resista eternamente a calar um povo. “Apesar de você, amanhã há de ser outro dia”.

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