
A menos de quatro meses das eleições legislativas na Argentina, marcadas para 26 de outubro, uma crescente tensão entre o presidente Javier Milei e sua vice, Victoria Villarruel, ameaça desestabilizar a unidade da direita no país. No pleito, serão escolhidos 127 deputados federais, 24 senadores e parlamentares provinciais, mas os sinais indicam que os dois principais líderes do governo podem subir em palanques separados durante a campanha.
O estopim mais recente da crise foi a aprovação, no Senado presidido por Villarruel, de um projeto que aumenta as aposentadorias — uma proposta da oposição que Milei prometeu vetar. Após a votação, o presidente foi às redes sociais insinuar que alguns liberais estariam “mais próximos do kirchnerismo”, enquanto Villarruel respondeu com uma frase de Eva Perón: “Onde existe uma necessidade, nasce um direito”, intensificando o embate. Em discurso posterior, Milei chegou a usar o termo “traidora”, sem citar nomes, o que foi interpretado como recado direto à vice.
As divergências entre os dois não são novidade. Desde o início do mandato, Villarruel e Milei acumulam desentendimentos. O presidente chegou a prometer a ela o Ministério da Defesa, promessa nunca cumprida. Além disso, votações no Senado convocadas pela vice resultaram em derrotas para o governo, acirrando o distanciamento. Em agendas públicas, ambos têm evitado aparições conjuntas, e Milei frequentemente lança críticas indiretas à vice.
Além de diferenças pessoais e estratégicas, há uma clara divergência ideológica entre os dois: Milei representa o liberalismo radical e defende cortes drásticos de gastos, enquanto Villarruel, ligada à ala nacionalista e mais tradicional da direita, apoia medidas de proteção social, como reajustes para aposentados. Apesar de estar menos prestigiada que o presidente no momento, analistas políticos apontam que Villarruel pode estar preparando terreno para disputar a presidência em 2027, o que consolidaria o racha na direita argentina.
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