
A terceira lei de Newton - “a toda ação corresponde uma reação” - não falha. Na diplomacia também não. E os Estados Unidos, maior democracia ocidental, sabem bem como responder quando se sentem provocados.
A escalada entre Brasil e EUA ganhou um novo patamar nesta sexta-feira, 18, com a revogação dos vistos do ministro Alexandre de Moraes, dos demais integrantes do Supremo Tribunal Federal (STF) e de seus familiares próximos. O anúncio foi feito pelo secretário de Estado, Marco Rubio, horas depois de mais uma operação da Polícia Federal contra Jair Bolsonaro, determinada por Moraes.
Rubio não poupou palavras: acusou Moraes de liderar uma “caça às bruxas política” contra Bolsonaro, criando um “complexo de censura” que, segundo ele, atinge não só brasileiros, mas também cidadãos americanos. “A liberdade de expressão é uma cláusula pétrea para nós”, declarou, reafirmando a diretriz do governo Trump de punir autoridades estrangeiras que violem esse princípio.
Além da revogação dos vistos, o governo Trump já havia endurecido o tom nos últimos meses, com o anúncio de tarifas de até 50% sobre produtos brasileiros - que passam a vigorar em 1º de agosto -, e críticas abertas à postura de Lula e do STF em relação a Bolsonaro. Segundo Rubio, essas medidas são uma resposta direta ao “sistema persecutório” criado no Brasil.
Até agora, os nomes confirmados com vistos revogados são: Alexandre de Moraes, os dez outros ministros do STF, alguns integrantes do TSE, além de familiares diretos. Todos eles passam a ser impedidos de entrar em solo americano - seja para compras em Miami, palestras em Nova York ou férias em Orlando.
Diplomaticamente, trata-se de um gesto forte, que sinaliza não só reprovação ao Judiciário brasileiro, mas também um claro recado ao governo Lula, que, nas palavras de Trump, “escolheu afrontar os EUA ao invés de dialogar”.
A depender da postura de Brasília, sim. Assessores próximos a Trump já cogitam ampliar tarifas sobre o agronegócio brasileiro e impor restrições a contratos de defesa, caso Lula e Moraes não recuem na perseguição a Bolsonaro.
Entre as sanções possíveis, diplomatas citam ainda:
restrição a acordos bilaterais comerciais;
bloqueio de cooperação em segurança regional;
veto a autoridades brasileiras em fóruns internacionais.
A relação entre Lula e Trump já vinha estremecida desde o início do atual mandato. Lula fez questão de minimizar a liderança americana no Brics, criticou o dólar e aproximou-se de China e Rússia em temas sensíveis para Washington. Ao mesmo tempo, ironizou Trump em discursos públicos, dizendo que “nenhum gringo dará ordens ao Brasil”.
Do lado americano, Trump também vinha incomodado com o tratamento dado a Bolsonaro, visto por ele como aliado. As operações contra o ex-presidente e, mais recentemente, a imposição de tornozeleira eletrônica - e a proibição de falar com o próprio filho, exilado nos EUA - foram a gota d’água.
A decisão de revogar vistos não é apenas simbólica. É um recado: os EUA não tolerarão perseguições políticas travestidas de justiça. Para além das consequências práticas, essa medida expõe a crescente percepção internacional de que o Judiciário brasileiro atravessa uma linha perigosa. As restrições americanas denunciam ao mundo um Brasil que perde a cada dia a sua democracia. Um país onde prevalesce a perseguição aos que discordam do governo e a censura a qualquer um que pense fora da caixa.
O mundo começa a tomar conhecimento de um Brasil bem diferente daquele das campanhas da Embratur: um país que prende deputados com mandato por crime de opinião; obriga outros a se autoexilarem para não apodrecerem na cadeia; que censura a imprensa; que mantém jornalistas exilados e que persegue tenazmente o ex-presidente da República, Jair Bolsonaro.
O que vem a seguir dependerá da disposição de Lula e Moraes em recuar - ou dobrar a aposta. Se optarem pelo confronto, novas sanções são apenas questão de tempo. Um tempo que pode ser abreviado para imediato.
Por enquanto, vale lembrar: em diplomacia, assim como na física, toda ação tem uma reação. E, desta vez, a reação veio pesada.
“O presidente Donald Trump deixou claro que seu governo responsabilizará estrangeiros que promovam censura contra a liberdade de expressão protegida nos Estados Unidos.
A caça às bruxas política conduzida pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, contra Jair Bolsonaro criou um sistema de perseguição e censura tão amplo que não apenas viola direitos fundamentais dos brasileiros, mas também ultrapassa as fronteiras do Brasil e atinge cidadãos americanos.
Por essa razão, ordenei a revogação dos vistos de Moraes, de seus aliados no tribunal e de seus familiares mais próximos, com efeito imediato”.
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