
Não é todo dia que um dos maiores jornais da Alemanha chama a União Europeia de arrogante e precipitada - e menos ainda para admitir que talvez Jair Bolsonaro fosse, aos olhos da geopolítica, um aliado mais confiável que Luiz Inácio Lula da Silva. Mas foi exatamente isso que o Die Welt estampou em editorial recente: a rejeição quase visceral a Bolsonaro e o acolhimento caloroso a Lula foi um “erro colossal” cometido por Bruxelas. Um "erro crasso" que impactou a geopolítica mundial.
A análise é incômoda para progressistas europeus e para lulistas de plantão, mas necessária: por que a Europa errou tanto?
A resposta é simples e brutal: a UE colocou ideologia acima de estratégia. Em 2019, havia uma rara janela para finalizar o acordo histórico de livre-comércio UE-Mercosul, mas os líderes europeus se recusaram a aparecer na mesma foto com “um populista de direita”. Hoje, pagam o preço por ter escolhido “o homem errado” para cortejar: Lula, que já deixou claro que suas afinidades externas são com Moscou, Pequim e Teerã, não com Bruxelas.
A expectativa europeia era que Lula retomasse o “multilateralismo responsável”, mas bastaram poucos meses para ele mostrar o contrário: desdenhou de Kiev, relativizou a guerra da Rússia contra a Ucrânia, comparou Israel ao nazismo e abriu as portas para a influência chinesa e iraniana. Para um continente que se diz guardião da democracia e dos direitos humanos, ver o Brasil flertar com ditaduras sanguinárias é um tapa na cara - e um lembrete de que alianças são feitas entre Estados, não entre ideologias.
Ao virar as costas para Bolsonaro, a UE abriu espaço para que Lula ocupasse o protagonismo no BRICS, reforçando um bloco que desafia diretamente os interesses ocidentais. Resultado? O maior país da América Latina hoje serve de plataforma para a agenda de regimes autoritários no Sul Global. E agora, diante dessa realidade, a UE se vê constrangida a admitir que suas apostas não só enfraqueceram o Ocidente, como também fortaleceram seus adversários estratégicos.
A retórica “populista de direita” de Bolsonaro e seu descaso com pautas ambientais serviram como justificativa perfeita para a rejeição europeia. Ele era visto como um risco para a Amazônia, a democracia e os “valores ocidentais”. O problema é que, mesmo com todas essas falhas, sua política externa ainda era muito mais alinhada aos EUA, à OTAN e a Israel do que a de Lula jamais foi ou será. A cegueira ideológica europeia os impediu de perceber isso a tempo.
Reconhecer, mesmo que veladamente, que trocar Bolsonaro por Lula foi um erro é um duro golpe para Bruxelas e para a retórica progressista global. Não se trata de absolver Bolsonaro - com todos os seus defeitos - mas de assumir que, no tabuleiro da geopolítica, o pragmatismo deveria ter prevalecido sobre a vaidade ideológica.
Esse mea culpa tardio expõe a fragilidade de uma elite política europeia mais preocupada em posar para selfies de “virtude” do que em defender, de fato, os valores que diz representar.
Ao rejeitar Bolsonaro por preconceito ideológico e acolher Lula por nostalgia romântica, a UE não só prejudicou sua própria influência no Sul Global, como empurrou o Brasil para um perigoso abraço com ditaduras globais. O erro colossal não foi só da Europa - foi, também, de uma narrativa hipócrita que insiste em chamar de democrático todo aquele que veste vermelho.
A geopolítica não é para os ingênuos - e o Brasil, hoje, é a prova viva de como arrogância e ideologia, na diplomacia, podem custar muito caro.
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