
As cenas registradas nesta segunda-feira, 7 de julho, no bairro Santo Antônio, zona Sul de Teresina, não são apenas chocantes. São um atestado da falência moral e institucional de um país onde o crime organizado já não conhece limites - e nem precisa temê-los.
Francisco Eduardo Nascimento Santos, mototaxista, assassinado a tiros no domingo, foi velado por sua família no dia seguinte. Mas nem mesmo morto ele teve paz. Um grupo armado invadiu o velório, disparou várias vezes contra o corpo de Eduardo - já no caixão -, mirando o rosto e espalhando o terror entre todos os presentes. A mãe cadeirante assistiu impotente ao espetáculo macabro. Os filhos choraram, apavorados. Antes de irem embora, os assassinos ainda avisaram, frios: “Parem o velório agora e enterrem logo o corpo senão vamos voltar”.
O que se passa na periferia de Teresina não é apenas uma tragédia policial. É uma demonstração clara de que o crime organizado no Brasil já superou em crueldade até as máfias mais brutais do planeta. Nem a Camorra napolitana nem a Cosa Nostra siciliana ousaram jamais violar cadáveres ou humilhar mães em velórios. Entre mafiosos, ainda prevalece - por distorcido que seja - um código de “honra”: não tocar em inocentes, não punir crianças nem ultrajar mortos. Nas facções que espalham medo em Teresina e em outras capitais brasileiras, não há nada disso. Não há honra, só selvageria.
O delegado responsável pelo caso tentou classificar o episódio como “uma desavença pessoal alimentada por drogas”. Mas quem acredita nisso fecha os olhos para a realidade mais profunda: essa é a estética da crueldade que as facções impõem a comunidades inteiras. Não basta matar. É preciso humilhar. Não basta intimidar um inimigo. É preciso esmagar toda a sua família. Não basta tirar a vida. É preciso ultrajar até o cadáver.
O caso de Eduardo só se compara a outro episódio recente e igualmente grotesco: criminosos desenterrando um corpo no Cemitério Santa Cruz, na região do Promorar, para incendiar o caixão. Dois atos simbólicos de um mesmo horror: o terror imposto não só aos vivos, mas também aos mortos.
E a pergunta que não quer calar é: até quando? Até quando vamos aceitar que bairros inteiros se tornem feudos de criminosos, onde a polícia chega tarde demais e sai cedo demais? Até quando vamos assistir a essas barbaridades e nos consolar dizendo que é “guerra do tráfico” ou “desavença pessoal”? Até quando vamos normalizar a anarquia sangrenta que já tomou as ruas?
Enquanto isso, a mãe cadeirante de Eduardo carrega a imagem do filho sendo executado duas vezes: a primeira, em vida; a segunda, já morto. Um retrato cruel do que significa viver - e morrer - em uma cidade dominada pelo medo. A propósito, na região Sul da capital, onde as facções mandam, prevalece a omertà: o código de silêncio em que quem fala é silenciado.
A máfia, por mais perversa que fosse, ainda respeitava as regras do próprio jogo. As facções brasileiras nem isso têm. Fazem da ausência de regras a sua bandeira. Fazem da desumanidade a sua marca registrada.
Se não reagirmos agora, se não cobrarmos das autoridades uma resposta proporcional à ousadia dessas quadrilhas, amanhã seremos todos reféns - e cadáveres caçados. A situação chegou a tal ponto que o esforço de policiais e delegados abnegados em combater o crime já não é suficiente. É preciso uma força-tarefa que envolva a Secretaria de Segurança, a Polícia Militar, o Ministério Público, o Poder Judiciário e a Polícia Federal, para que a Polícia Civil deixe de apenas “enxugar gelo”: Prende hoje e justiça solta amanhã!
Teresina não merece conviver com tamanho terror. E o Brasil já não pode mais fingir que isso é só “mais um crime”. Não é. É o fracasso de uma sociedade inteira diante do seu próprio monstro - um monstro gerado pelo próprio Estado ou pela sua ausência.
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